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Região

Importação vai agravar situação dos pequenos produtores

Essa é a avaliação do coordenador geral da Sutraf – AU, Douglas Cenci, para ele, medida não é somente negativa, mas desastrosa. Para o produtor de leite de Quatro Irmãos, Ivan Antoniolli, todos os envolvidos na cadeia leiteira acabam de um modo ou de outro tendo perdas. Segundo doutor em bovinos de leite, Vilmar Fruscalso, produtor vai ter que se adequar a esse “novo mundo” e ser competitivo

"Se não houver mudanças nessa decisão do governo será o fim dos pequenos produtores”, diz Jaime
“Todos os envolvidos na cadeia acabam de um modo ou de outro tendo perdas", diz Ivan
Por Ígor Dalla Rosa Müller
Foto Divulgação

Uma medida publicada pelo governo federal está preocupando a cadeia produtiva do leite. A circular Nº5 publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta quarta-feira (6) impõe o fim da cobrança tarifária antidumping, que vigora desde 2001, sobre a importação de leite em pó, integral ou desnatado da União Europeia e Nova Zelândia. Isto é, libera a importação.  

Para o coordenador geral do Sindicato Unificado dos Trabalhadores da Agricultura Familiar do Alto Uruguai (Sutraf – AU), Douglas Cenci, isso não é somente negativo, mas desastroso. “A cadeia do leite não só na região, mas no Estado como um todo desde 2014 vem enfrentando sérias dificuldades”, diz.

Segundo ele, em 2014, em função da Operação Leite Compensado o agricultor teve que comercializar o leite por menos da metade do preço na época. “Desde lá, teve alguns momentos de recuperação em 2016, mas essa cadeia vem sofrendo altos e baixos em decorrência das importações do Uruguai e da Argentina, que acabam colocando leite mais barato no Brasil. E, diga-se de passagem via Rio Grande do Sul, que é um estado exportador de leite, e acaba prejudicando ainda mais os nossos produtores”, afirma.

Douglas afirma que a retirada das taxas de importação do leite da União Europeia e da Nova Zelândia é muito prejudicial. “Não conseguimos evitar o problema que já tinha em relação ao Uruguai e Argentina, agora se agrava com essa liberação”, destaca.

O coordenador geral do Sutraf – AU comenta que num momento em que o Brasil vive uma recessão, o Estado está usando poucos instrumentos para garantir que o estoque interno seja colocado. E diz que o governo poderia comprar leite para distribuir nas escolas, ter várias iniciativas no mercado institucional.

“Mas não tem feito, e não tem adotado medidas para movimentar a economia, como por exemplo, reajuste maior ao salário mínimo. Diria que pouco tem sido feito, no último período, e com essa medida agrava essa situação que já era deprimente”, ressalta.

Um levantamento do Sutraf/AU mostra que na sua área de atuação em 24 municípios da região, de 2015 a 2018, 32% dos produtores de leite deixaram a atividade. Isso representa 1575 famílias a menos produzindo leite, dos 4920 produtores em 2015, hoje são em torno de 3345 agricultores.

Um levantamento feito pelo sindicato no ano passado mostrou que a produção dessas famílias chegava a quase 1,5 milhões de litros de leite por dia. Isso representa R$ 1,5 milhões sendo produzidos diariamente nesses municípios. “O leite com toda desistência de produtores é a principal atividade econômica, é a que mais emprega na região como um todo”, diz.

Isso porque além da família do produtor envolvida diretamente na produção, há também muitas pessoas no transporte, assistência técnica, venda de insumos e recebimento do leite.

Além disso, o leite é uma das principais alternativas de renda para a agricultura familiar. “Não tendo a atividade de produção de leite esses agricultores vão fazer o quê? A soja não é viável em pequenas propriedades e a integração de suínos e aves demanda grandes investimentos. O leite é uma atividade consolidada. Tem sido difícil, também sou produtor e o desânimo é grande”, afirma.

Segundo Douglas, essa medida vai trazer um impacto futuro, no entanto, será difícil saber quanto leite vai vir da União Europeia para o Brasil, e quanto isso vai impactar na vida local. “Esperamos que o governo volte atrás nessa medida, a agricultura familiar já vem sofrendo demais”, diz

Ele cita ainda outro exemplo, a perda dos subsídios da energia elétrica, que vai impactar negativamente no setor, já que em cinco anos será reajustado mais de 40% do valor da energia elétrica. “Indispensável para o leite e hoje tem problema no fornecimento, com luz fraca, na qualidade”, destaca.

Produtor

Para o produtor de leite de Quatro Irmãos, Ivan Antoniolli, com certeza essa medida vai prejudicar a cadeia do leite, pois esse seria um período de aumento no preço, por conta da maior demanda nesta época. Ivan não sabe ao certo se vai baixar o valor pago pelo litro do leite, tem que esperar os próximos dias. Mas acredita que vai frear um possível aumento de preço.

Como produtor ele acha errada essa medida do governo, e que o reflexo disso será sentido, principalmente, da porteira para dentro da propriedade, com menos geração de riquezas, empregos diretos e indiretos. “Todos os envolvidos na cadeia acabam de um modo ou de outro tendo perdas. Setor de máquinas, defensivos, sementes e o produtor na ponta principal”, observa

Fim dos pequenos produtores

Segundo o produtor de leite, Jaime Rosset, da Linha Rio Verde interior de Erechim, que há 30 anos produz leite no Alto Uruguai, a cadeia do leite já vem desestimulada a bastante tempo, cada dia que passa são mais e mais agricultores deixando a atividade. Ele explica que são vários fatores, o envelhecimento da população rural que está cada vez com mais dificuldade para executar as tarefas e a sucessão familiar, que quase não existe mais.

“Mas o principal motivo da desistência é o baixo preço pago pelo litro do leite e o alto preço do alimento dos animais, que para o agricultor não sobra quase nada. Além do trabalho sofrido, agora essa novidade, a liberação da importação é para acabar de vez com a produção de leite na agricultura familiar. Nos outros países a realidade é outra, os agricultores têm subsídio para produzir, não temos como competir. Se não houver mudanças nessa decisão do governo será o fim dos pequenos produtores”, comenta.

Região

Segundo o assistente técnico regional de Criações da Emater/Ascar, Vilmar Fruscalso, e doutor em bovinos de leite, todos os 32 municípios do Alto Uruguai trabalham com produção leiteira, são em torno de 6200 produtores que geram em torno de 316 milhões de litros de leite por ano. Isso representa em média R$ 316 milhões movimentando a economia da região.

Para Vilmar, o produtor vai ter que se adequar a esse novo mundo e ser competitivo o suficiente para concorrer com o leite importado. “Isso será cada vez liberado mais, porque 85% da população vive no meio urbano e quer leite barato. Se barrar as importações do Mercosul eles vão parar a compra da linha branca, automóveis. Existem acordos internacionais, há pressão de todos os lados”, explica.  

Ele não acredita que vai haver daqui para diante, por parte desse governo, algum empecilho às importações de lácteos. “Temos que ser competitivo, se modernizar, produzir em escala com qualidade. Fazer a modernização da atividade, o que já está sendo feito na suinocultura e avicultura, mas não na bovinocultura de leite”, comenta.

Segundo Vilmar não vai alterar muito o preço que está em alta no momento, que chegou no fundo do poço em novembro, dezembro do ano passado a R$ 0,90. “Depois subiu para média de R$ 1 e agora está R$ 1,12 na região, e para o mês que vem deve estar um pouco maior. Tem indústria oferecendo R$1,60 aos maiores produtores. Não acredito que isso vá ter grande impacto para a região”, observa.

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