Gaurama é um município do Alto Uruguai com quase seis mil habitantes, localizado a 20 quilômetros de Erechim. Economia diversificada com atividade no setor agrícola, industrial e comercial. O município vai fazer 64 anos de emancipação política e administrativa, mas tem uma colonização com mais de 100 anos de história. Dentro disso, o Jornal Bom Dia traz a segunda reportagem da série para olhar mais a fundo a realidade da região e o que pensam os gestores públicos neste ano de eleições. Nesta entrevista, conversamos com o prefeito de Gaurama Leandro Márcio Puton, que está no seu primeiro mandato e foi vice-prefeito durante oito anos.
Bom Dia: Faça uma avaliação do seu mandato?
Leandro Marcio Puton: Procuro fazer um governo racional. Consigo com isso gerar uma economia muito grande mensalmente. Entendi que dá para se criar uma administração que se preocupa com o dinheiro público, que desafie os profissionais a terem criatividade e a suprir as necessidades.
Ser eficiente e levar o serviço igual?
Exatamente. Procuro ser sempre cauteloso, elegendo prioridades. As contas do nosso município são equilibradas. Fizemos investimentos em educação, saúde, mas também em ações preventivas. Acredito que sejamos um dos poucos municípios do Alto Uruguai, que desde janeiro do ano passado, tem realizado obras com recursos próprios.
Por exemplo?
Ruas históricas que nunca receberam asfalto ou calçamento estão sendo calçadas, recapeamento asfáltico. Tenho orgulho de dizer que não preciso mendigar uma emenda parlamentar. O deputado que quer colocar uma emenda é bem-vinda e agradeço. Mas não foco Brasília com objetivo de buscar emendas. Entendo que tem que fazer o serviço de casa, uma gestão responsável. Se tiver noção da receita e souber programar a despesa, o município pode funcionar muito bem.
Essa é a lógica da sua gestão?
Procuro fazer uma gestão preocupada em desenvolver o município na sua totalidade. Uma marca do meu governo é trabalhar pela coletividade. E assim temos conseguido avançar. O que tem que mudar é a maneira de fazer gestão pública, que tem que ser responsável.
Independente das crises é possível ter uma administração pública mais eficiente?
É possível. Fui eleito pelo desafio de fazer gestão no município. Fazer gestão é ter independência, construir os caminhos econômicos que permitam desenvolver as políticas públicas. Se eu vou me tornar prefeito para ficar mendigando no governo do estado ou no governo federal, não tem porque ser prefeito. Os municípios não podem se omitir de fazer gestão diante das dificuldades. É preciso uma administração que conheça as suas potencialidades, saiba até onde o município pode ir e que tenha conhecimento das suas despesas. Gosto de frisar, as dificuldades de Gaurama não são motivos para ficar lamentando. São desafios, e tenho que buscar no grupo de funcionários, na estrutura econômica do município as condições para implementar as políticas.
Fazer gestão pública traz resultados?
Traz resultados. A administração pública tem que atuar no coletivo. Essas ações trazem resultados maiores, porque o investimento abraça mais setores da sociedade. Se fizer uma gestão comprometida com a transparência, mostrando que se trabalha pelo coletivo, cuidando do dinheiro público, desenvolvendo políticas públicas, automaticamente, se tem a aceitação da população. Mas a política não pode ser feita com medo.
Por quê?
Se for fazer com medo não vou tomar certas atitudes. Mas se eu tiver coragem de mostrar o caminho certo, as minhas ações responsáveis com o dinheiro público vão repercutir na minha imagem política. Quero ser reconhecido como gestor público que trabalhou pela coletividade. Essas são pequenas diferenças que podem acontecer. Agora tem que ter coragem para fazer isso.
Como mudar?
Como romper com a política velha, com esse sistema que está impregnado nesse país? Não é fazendo ataque político. Não é uma questão partidária. É uma questão cultural, de comprometimento, que sociedade se quer construir. As pessoas tem que ter uma visão de mundo, saber separar o que é público e o que é privado. Agora, se continuar insistindo em acusar, sem fazer uma autocrítica, não vamos conseguir ter uma sociedade e nem uma administração melhor.
O que fazer a partir daí?
Olhar para as potencialidades do município. Preciso conhecer a minha realidade. Incentivar sem ser assistencialista. Criar e aumentar as parcerias de capacitação, pois conhecimento é fundamental. Por exemplo, temos que descobrir a vantagem de estarmos perto de Erechim. Historicamente se lamenta essa proximidade.
Um dos problemas da região?
Um dos grandes problemas que se desenha para as próximas gerações na nossa região é a questão do emprego e renda. Então, os municípios têm que buscar seu próprio caminho. Não tenho a fórmula, mas tem que ter criatividade. Erechim não vai dar conta dessa demanda.
Alguns municípios estão investindo em distritos industriais, essa seria a opção?
Temos indústrias com receita e retorno interessante para o município. Estamos com projeto de ampliação da área industrial, mas com muita racionalidade. Vamos criar um programa de ocupação, mas sem aventuras.
A questão social é importante?
Temos muita preocupação com a questão social, principalmente, os jovens. Temos 12 oficinas vinculadas ao CRAS. Estamos trabalhando dentro da cidade e no interior para ter avanços na questão social, socialização, mostrar que temos direitos, mas também deveres. As políticas implantadas em Gaurama não são copiadas de nenhum município, elas são debatidas dentro dos problemas que nós temos.
Como vê essa questão da Amau e acessos asfálticos?
Os acessos asfálticos é um descaso de governo estadual após governo estadual. A Amau é um fórum de debates. Melhoramos muito quanto Amau. Os 32 municípios têm que se desarmar politicamente, ideologicamente. Temos que construir uma proposta de desenvolvimento regional, mas não podemos nessa construção ter como seu sucesso recursos estaduais ou federais.
E a Agência de Desenvolvimento?
Precisamos respeitar as particularidades dos municípios, vejo a Agência de Desenvolvimento com dificuldade nisso.
É necessária uma reforma política?
Precisamos de uma reforma política e tributária. Segundo, precisamos terminar com as emendas parlamentares. Não dá para continuar preso a essa política, em que a emenda parlamentar é uma moeda de troca. Ter um deputado federal é importante, mas não resolve nosso problema, que não é só de dinheiro, é político. Precisamos ter consciência para mudar a política. Se continuar com ações paliativas ou achando que vamos ter um salvador da pátria não vamos avançar nunca. Os vícios da política inviabilizam os avanços, e, ainda, estamos presos ao individualismo.
Tem que mudar o foco?
O que precisamos é mudar o posicionamento da sociedade civil, da mídia e trazer à tona o debate da reforma política e tributária. Historicamente, quando se acirra essa discussão surge um fato novo, e o assunto começa ser esquecido pela nossa população.
Na sua visão a emenda parlamentar é um problema?
A emenda parlamentar vai contra a questão pública na sua essência, porque não há divisão de recursos. Tem que dar condições iguais para os municípios, pois estamos falando da coisa pública.
O que não pode faltar num político?
Caráter, valores e coragem. E coragem é bater de frente com o sistema que está aí na cidade pequena ou grande, em setores da mídia, em setores da sociedade.
Como vê as eleições de 2018?
É preciso conhecer quem merece o voto ou não. O cidadão tem que ter a responsabilidade de analisar quem é quem e o que defende. A sociedade civil tem que assumir o papel de fazer o debate e aí cobrar dos próximos parlamentares as reformas, que são fundamentais.
Vocação do Alto Uruguai?
O Alto Uruguai tem que trabalhar o desenvolvimento industrial e do agronegócio, mas também da agricultura familiar, que gera o alimento. Fomentar as pequenas cooperativas e aprender a comercializar. Ver as necessidades que temos na região. Se eu fosse presidente do país me preocuparia com as necessidades e potencialidades de cada estado. Estimularia a economia nacional, fazendo com que o dinheiro girasse aqui dentro, tendo estados negociando com estados, fazendo o dinheiro criar riquezas. Num segundo patamar iria focar na exportação.