Quando a distância não separa
Durante os quase dez anos em que vivi em Entre Rios do Sul, com uma frequência quase que indesejada, ouvia os autofalantes da Igreja Matriz tocarem uma musiquinha fatídica. Sempre que alguma alma desgrudava da existência, lá vinha o anúncio do tal falecimento. Perdi a conta de quantas pessoas, conhecidas ou não, foram anunciadas pela torre. Um ritual que se tornou corriqueiro para quem mudou da grande cidade para o interior.
Os falecidos
Por sorte, a maioria dos anúncios que ouvi não eram de pessoas próximas, com exceção do meu vizinho Juca Leimann. Até então, foi o que mais senti, sem esquecer do bebê Yuri, cuja passagem tocou-me profundamente. E como se passaram muitos anos, muitos nomes foram anunciados. Quando a cidade é pequena um velório se torna um evento. Depois que mudei para Portugal, nunca mais os ouvi, muito embora saiba que continuaram a existir. Me lembro deles toda vez que vejo os obituários da Covilhã. Como há muitos idosos em Portugal, há também muitos passamentos. Afinal, se há uma verdade na vida, é a certeza de sua finitude.
Desassossego
Até que chegou a minha vez. A minha vez de ouvir, ou melhor, de imaginar o som a sair dos autofalantes da Igreja. Fecho os olhos e consigo imaginar minha tristeza transportada para aquele lugar. É sempre doloroso perder alguém, um consolo que só mesmo a fé é capaz de oferecer. Por outro lado, é bom saber que quando perdemos alguém, perdemos para Deus e, perder para Ele acaba por ser um ganho, um conforto. Faz bem pensar assim, ainda que não afaste a tristeza e a iminente saudade que há se instalar, especialmente entre os que convivem de perto.
A minha perda
Deixar o Brasil me fez assumir muitos riscos. O maior deles é estar longe das pessoas que estimamos. A separação dos amigos e familiares é um desafio que dói. Então, quando um desses entes mais queridos precisa fazer o regresso, nos sentimos duplamente feridos quando não podemos fazer a despedida, outrora antecipada com a partida para plagas distantes. Tampouco se pode voltar a visitar quem amamos. Um risco que finalmente me acometeu. Na semana que passou, perdi a Tia Nena. Para que não a conhece, é a avó do menino Vicente, esse que virou o mundo em busca da cura para sua cegueira.
A Tia Nena
Sempre que soavam os autofalantes a Tia Nena logo chegava para trabalhar e nos dizia quem era. Ela foi (e continuará sendo) uma dessas pessoas do bem que a vida põe em nosso caminho. Começou por ser nossa empregada doméstica, termo de que não gosto, mas quanto a isso não havia o que fazer, senão tratá-la com amor e respeito. Aos poucos, aquela mulher acoada, castigada pela vida e pelas pessoas que por ela passaram, foi conquistando o nosso coração, o nosso respeito e, o mais importante, a nossa admiração. Por saber de tudo o que se passava em nossa casa, portou-se como a maior de todas as confidentes. Nunca, jamais comentou nada do que se passava por lá e, sempre que algo acontecia, ela tinha a sapiência de tomar as melhores decisões, de saber calar e saber dizer o que era preciso e com firmeza.
O nosso fim
Mas como a vida tem dessas coisas, Tia Nena foi vencida pelo câncer, doença que teve de conviver por dois anos. Tratou-se como pode. Nesse intervalo, soube viver da melhor forma possível. Reconciliou-se com quem precisava, reuniu a família, reencontrou amigos, irmãos, viajou. Fez desses dois anos uma grande e bonita despedida. Soube viver, embora sua história pedisse mais, muito mais. Vai ser difícil voltar a Entre Rios do Sul sem ela. E nesse aprendizado de viver longe, eu vos digo: “a distância não separa o que a saudade cuida”. Obrigado por tudo Tia Nena. Seremos eternamente gratos! Teu exemplo permanecerá naqueles que tiveram o privilégio de estar contigo.