Dor de cotovelo
Nem perdi tempo. Fui direto à internet e lá está: o conceito de “dor de cotovelo”. Pelo que vi – e disso todos já sabem – é uma expressão utilizada para designar o despeito provocado pelo ciúme ou a tristeza de se ter sofrido alguma decepção amorosa. A origem remete à clássica cena de alguém sentado num bar, com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro e uma cara embriagada no espelho do banheiro…Não, isso é da música. Me refiro aos cotovelos apoiados no balcão ou na mesa. Mas será que há outras dores de cotovelo?
Gratidão
Nosso corpo é algo realmente fantástico. Uma perfeição divina que, como os momentos de felicidade ou tristeza, uma hora termina. Falece. Antes disso - e essa é a parte boa - nosso corpo nos proporciona inúmeras sensações, prazeres e experiências. É chato ficar chato quando se fica velho. Reclamar e se queixar da falta de saúde, para quem já viveu bons anos, é uma forma de ingratidão com tudo de bom que se viveu. Então, para os que já estão no último quarto da vida, pense bem antes de reclamar das dores. Se tens boa memória, lembre-se das coisas boas. Feche os olhos e agradeça. Como foi bom…
Dobradiças
Se somos seres espirituais vivendo uma experiência humana, material, como dizia o Padre Teilhard de Chardin, é normal que tenhamos reações como as de qualquer matéria. Há pessoas que nascem com excelente saúde, mas outras não. Sempre tem aquele que sofre com dores nas articulações. Joelhos e coluna costumam ser os campeões. Não deve ser fácil ficar dobrando e suportando o peso do corpo por anos a fio. Ainda mais depois que engordamos. Fora os pesos que carregamos n´alma, e que sabemos, também refletem em nossas “dobradiças”. Além disso, tirando as próteses, não há como fazer grandes manutenções, trocas de peças e coisa e tal.
Minhas dores
E não é que dei entrada no grupo das dores…Descobri uma dor de cotovelo. Nem sabia que existia. Melhor, sabia no sentido figurado, esse do sujeito que vai ao bar segurar a cabeça apoiada aos cotovelos. No meu caso, não chega a ser dor de amor. É coisa de velho mesmo. Me meti numa obra. Foi por amor, confesso. Amor aos livros. Fiz pintura, lixação, instalação hidráulica e elétrica e até os móveis. Tudo sozinho e para ser mais autoral e econômico. O resultado não podia ser outro: dor de cotovelo. Em verdade, uma tendinite, que na medicina chamam de “cotovelo do tenista”. De onde? Se nem tênis eu jogo. Descobri que nossos tendões são como cordas e, de tanto esticá-las, para lá e para cá, elas reclamam, com a voz da dor. Agora ando assim, cheio de cuidados…como um velho.
No sentido figurado
Mas eu bem que poderia aqui fazer uma confissão. A Livraria Agridoce, esse templo de cultura encravado no coração da Capital da Amizade, fez doer meus cotovelos. Não por conta de um amor não correspondido. Nada disso. O Márcio e a Márcia foram essenciais no meu tratamento. É que, inspirado no sucesso e no exitoso modelo de negócio deles, pude contar com o apoio desses iluminados para abrir a minha livraria aqui em Portugal. Um grande desafio, se considerarmos que foi aqui, na terra de Camões e de Fernando Pessoa onde nasceu a nossa linda língua portuguesa. E desde o dia 31 de janeiro, o cronista do Bom Dia, também hoje do Jornal Fórum da Covilhã (e da rádio), tornou-se o novo livreiro da cidade. Uma honra com o DNA Agridoce. Muito obrigado! E assim vou seguindo o meu caminho, com ou sem dores. É preciso andar.