Ainda estou aqui
Para quem abriu uma livraria, falar de um filme baseado num livro poderia ser um sacrilégio. Mas como já passei da fase dos exageros da vida, não me importo mais com isso. Me importa sim, é saber o que anda passando por aí. E como outro dia comentei sobre o filme da Fernanda Torres, chegou a minha vez de assisitir.
Em Portugal
O filme brasileiro tem feito um enorme sucesso em Portugal. Algo que os portugueses sabem bem e viveram bem, desde que terminou a ditadura de Salazar em 25 de abril de 1974. Foi no ano em que nasci. A partir do ano seguinte, muitas novelas brasileiras passaram a ser exibidas por esses lados. Gabriela, do comunista arrependido Jorge Amado, foi a primeira delas. Vem de longa data a admiração dos portugueses pela televisão brasileira. E como o tema de fundo é algo muito cultuado nessas bandas, o filme tem atraído muita gente para as telas. Sucesso de público e crítica.
O que vi
Não quero ser clichê. O filme é ótimo, mas não sei como pensam as cabeças do Oscar. De tão profundo que foram na pesquisa e realização, o filme mereceria o prêmio, mas como disse, não sei se a academia tem alcance intelectual para tanto. Algumas cenas me remeteram aos anos oitenta. Muito do que o filme passa, ainda vi acontecer no abrir das cortinas da “Nova República” de Tancredo Neves. O filme é, portanto, imperdível. Tanto para quem gosta de cinema nacional, quanto para quem gosta de História. Dessa vez, uma bem contada, sem máculas, sem bandeiras vermelhas ou verde-amarelas.
O que fica
O filme de Walter Salles é bem mais do que uma produção cinematográfica, assim como o livro de Marcelo Rubens Paiva (que ainda não li) é o que podemos chamar de legado. Algo que deveria ser ensinado nas escolas, nas comuns e principalmente nas cívico-militares. Um retrato pedagógico de como não deve ser um governo, um Estado e, principalmente, um povo. Se de um lado o Brasil desabrochava em cultura, arquitetura e desenvolvimento, de outro perdia o controle. Para acabar com o terrorismo os militares instauraram o terror.
Repercussão
Aqueles servidores públicos, operadores da repressão, eram como nazistas em seu modo impiedoso de “fazer justiça”. Por falar nela, onde estava? Alguma semelhança com o momento atual? Como será que se sentiria um preso político do oito de janeiro ao assistir o filme? Digo preso, não delinquente. Por certo é que a Justiça brasileira jamais poderá reivindicar e dizer: Ainda estou aqui.
Independente
É muito bom chegar aos cinquenta anos e ver ser eternizado esse documentário em forma de filme. Sutil sem ser superficial. Alegre sem ser piegas. Triste sem ser sensacionalista. Um retrato da História do Brasil que todos deveriam ver, especialmente os mais jovens. E se algum saudosista da violência não gostar do que digo, respondo: veja o filme. Para regozijo desses, tem até uma cena em que aparece a Papisa da Subversão. Prova de que o filme não tem nenhuma relação com a política. É independente.
Que não se repita
O que vemos em “Ainda estou aqui” é uma fotografia em formato de filme. Uma história que deve ser contada por gerações, até que os valores da paz e da democracia voltem a ser novamente ideais de um povo. Até lá, que sirva como modelo de vergonha, tal e qual os alemães fizerem – e ainda fazem – com as imagens do Holocausto. Que não se repita!