Silogismo
Nos primeiros dias da guerra na Ucrânia, quando escutava notícias da invasão russa, lembrei desta história que vou contar hoje. Quando estudava Direito, e lá se vão mais de vinte anos, meu professor de lógica chegava a ser chato, irritante e repetitivo, do tanto que ele insistia em nos ensinar o que era “silogismo”. De tanto ouvir seus exemplos, acho que aprendi. Mas o silogismo tem outras formas de existência, como nas brilhantes atuações do advogado Oswaldo de Lia Pires. Ele tinha uma invejável capacidade de transformar gestos e palavras em contundentes silogismos.
Entendendo silogismo
Está certo, se você não sabe, ou mesmo não lembra o que é silogismo, darei uns exemplos que irão te fazer lembrar. Não é pecado não saber. Trata-se de uma forma de argumentação, baseada em premissas, que levam à uma conclusão. Eis um exemplo simplório: se todo homem é mortal (premissa) e se João é homem (premissa), logo João é mortal (conclusão). Simples assim. Mas o problema está quando uma, dentre várias premissas, é falsa e o interlocutor não a percebe e concorda com a conclusão. Por exemplo: Se a Ucrânia baixar suas armas (premissa) e se aceitar a invasão Russa (premissa), não vamos mais jogar bombas. Viu, a responsabilidade pelo cessar fogo é da vítima. Inversão de responsabilidade.
Lia Pires
Conta a História, que o advogado criminalista Lia Pires, em uma de suas históricas e teatrais atuações, conseguiu absolver um sapateiro que havia matado seu vizinho com uma espingarda calibre doze. A vítima passava diariamente em frente à sapataria e proferia um palavrão ao réu. Até que um dia o sapateiro matou o vizinho desbocado. Tempos depois, no juri, Lia Pires começava a defesa do réu se dirigindo ao juiz, dizendo: “Excelentíssimo senhor juiz, presidente desses trabalhos”. O advogado repetiu essa frase quatro vezes seguidas. Na quinta oportunidade, o juiz o interrompeu, indignado. Ao que Lia Pires então respondeu: “Veja bem, excelência, eu o elogiei quatro vezes e o senhor ficou irritado. Imagine, se como o meu cliente, o senhor ouvisse um palavrão todo dia”. E o sapateiro foi absolvido.
A repetição
Semanas atrás, quando começou a guerra na Ucrânia, eu havia escrito sobre a história da Anne Frank. Em meus textos, falei sobre a desinformação, poderosa ferramenta de comunicação dos nazistas. Agora, assistindo o que dizem as autoridades russas, como o próprio presidente do conselho de segurança da ONU, me vejo novamente diante dos falsos silogismos e da real desinformação. Primeiro, porque existem coisas na vida que podem sim ser dialogadas, mas jamais negociadas. A vida é uma delas. E o que vimos, no começo desta guerra, foi o invasor de uma propriedade dizendo aos invadidos: “se vocês entregarem suas armas eu tomarei sua casa, porque eu entendo que ela deve ser minha e vocês não morrerão”. Isso é um silogismo, um falso silogismo. Na prática, é como se um dia você decidisse tomar para si a casa que já foi de sua avó, forçando a saída de seus moradores, sob a alegação de que, no passado, a casa foi da sua família. Simples assim. Essa é a guerra, absurda e controversa.
A guerra
Diante de tudo o que estamos assistindo, por óbvio tem muito mais coisas que não sabemos e que não temos condições de alcançar. Mas a provocação é livre. Seguimos com o silogismo. Por exemplo: Donald Trump era amigo dos russos. Donald Trump perdeu a eleição para Joe Biden. Logo, os russos são contra Joe Biden. Outra ideia: os americanos produzem mísseis e bombas. Mísseis e bombas têm prazo de validade. Logo, como se livrar dessas bombas quando o prazo de validade está próximo? E olha que estou falando dos americanos. Aí pra cima, falei dos russos. Infelizmente, não tem gente santa de nenhum lado. Se tivesse, talvez não teríamos guerra. Outro silogismo. Fica a dica, como dizem os jovens: antes de aceitar a conclusão verdadeira, analise bem se não há falsas premissas.