Dentro da literatura de Ciência Política ainda muito se discute quais são os fatores que levam à escolha de um eleitor em prol de um candidato, sendo este tipo de inquietação acadêmica abarcada, em parte, por um subcampo nomeado ‘’comportamento político’’. Um teórico que já teve sua obra muito discutida neste segmento foi Seymour Lipset, uma vez que parte importante de suas análises sustentava que o não-comparecimento eleitoral significa uma velada satisfação com o cenário político. O raciocínio de Lipset, ainda que bastante questionado por seus pares, é utilizado como ferramenta para se pensar o porquê as pessoas voluntariamente deixam de votar. Contudo, a discussão é capaz de alcançar nuances muito diferentes em países como o Brasil, onde o voto é obrigatório e ainda assim os índices de abstenção são continuamente elevados. Dessa maneira, o comparativo dos segundos turnos das eleições presidenciais de 2006 e 2026 revela um alto teor analítico quanto ao ato de ‘‘se abster apesar da obrigação’’.
Os números absolutos de 2006 e 2026
A segunda volta da eleição presidencial realizada no dia 25 do mês passado mostrou um movimento fora do padrão no histórico eleitoral brasileiro desde a redemocratização: uma diferença entre o primeiro e segundo turno de 3 milhões de eleitores que não se abstiveram. Em outras palavras, o índice de abstenção caiu de 21,08% para 19,22%. O valor registrado no segundo turno é ainda alto se retirado do formato percentual (30.509.005), mas esta foi a menor porcentagem desde 2006, que, naquela ocasião, ficou em 18,99%. Logo, em todas as eleições que ocorreram no intervalo 2006 a 2026, a abstenção em segundo turno foi maior que 20%.
As possibilidades explicativas para 2026
Algumas das explicações concernentes a 2026 são mais aferíveis à primeira vista pela proximidade do evento: foi notável que houve uma mobilização eleitoral massiva nas redes sociais por parte dos candidatos, ao mesmo passo em que estes aparentaram ter entendido que a ‘‘batalha’’ pelo voto do eleitor indeciso deveria se reposicionar na ‘‘arena’’ dos veículos de comunicação em massa. Algo que foi muitas vezes escanteado em outros pleitos desde a redemocratização, mas que foi entendido pelas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) como um campo favorável para se diminuir a massa de abstenção, pairou no fomento e mobilização de eleitores com idade a partir dos 70 anos, aos quais o voto já é facultativo. A campanha de Lula, por exemplo, ostensivamente repetiu a informação de que o comparecimento eleitoral é válido como prova de vida no INSS. Certamente, vindouras análises acadêmicas em diferentes campos da Ciência Política (não somente comportamento político) devem brotar por especializados em participação e representação política, o que deixará mais nítido os fatores intrínsecos de perfil do menor eleitorado que se absteve na eleição deste ano.
As possibilidades explicativas para 2006
O cenário era distinto na eleição que colocou à frente Lula, candidato à reeleição, e Geraldo Alckmin (PSDB), então governador desincompatibilizado de São Paulo: a composição partidária organizava-se por pautas diferentes, bem como o país se encontrava socio-politicamente em um momento estável. Sobretudo, e talvez o fator de maior diferença em relação a 2026, era o modo como as campanhas tinham para mobilizar o eleitorado em uma ‘‘era’’ pré-redes sociais.
Contudo, apesar das diferenças daquele Brasil para o de hoje, em essência os fatores apontados para a menor abstenção eleitoral no segundo turno das eleições de 2006 não são totalmente incomuns em comparação à atualidade política nacional. A campanha de Alckmin tendeu a explorar a polarização entre um lado que invariavelmente não votaria no PT, sobretudo apontando escândalos de corrupção associados ao governo e ressaltando que o crescimento econômico do país estava diretamente relacionado à estabilização monetária lograda durante o ‘’governo FHC’’. Por sua vez, Lula detinha forte aprovação da população de menor renda por conta de programas sociais, como o Bolsa Família, e nutria de maiores níveis de aprovação por conta da estabilidade econômica pela qual o país passava. Deste modo, a combinação destes dois componentes teria incentivado a população de menor renda e bases populares a engajarem-se nas urnas.
Além disso, parte da explicação para o menor índice de abstenção se relacionaria à mobilização das militâncias de ambos os partidos, que teria reduzido uma certa ‘‘imobilidade’’ de parte do eleitorado. É possível, também, que aqueles que se abstinham ainda não estivessem tão ‘‘cansados’’ de votar, sendo que tal ‘‘fator-exaustão’’ acabaria por seguidamente influenciar nas eleições seguintes. Porém, considerando esta argumentação, uma análise comparativa com o pleito presidencial de 2002 seria fundamental para compreender o fenômeno de abstenção no Brasil redemocratizado de modo holístico, já que o índice naquele ano foi de 20,47%.
O cenário à frente
A guiar-se pelo desenrolar das eleições de 2026, a compreensão dos porquês da abstenção provavelmente receberá crescente atenção pelos comitês de campanha de candidaturas brasileiras. Em suma, um dos grandes desafios aparenta ser compreender se as estratégias identificadas são efetivas a médio-longo prazo, dentro de um cenário altamente complexo como o do comportamento político, onde múltiplas variáveis estão continuamente em jogo e se ‘‘redesenhando’’.