Sempre fui fascinada por um bom “causo”, deixo que a curiosidade me guie, proseio com gosto. Daí, provavelmente, vem a paixão pelo jornalismo.
Minha memória ainda alcança o fascínio da criança que, atenta, passava horas e horas ouvindo vó Ângela contar as histórias de infância, com lucidez e retórica capazes de transportar à época narrada.
De um tempo pra cá, esse passado passou a se fazer cada vez mais presente nas nossas conversas, em repetições recorrentes, como se a memória recente se despedisse sem avisar, dando lugar apenas às lembranças remotas.
Acontece que, de repente, até mesmo o tempo pretérito deixou de ser acessado. A idade, bênção e maldição, chega para alguns levando consigo as lembranças, e faz com que, cedo ou tarde, quem está à volta fique sedento por, pelo menos, mais uma repetição.
Aquele mesmo causo, contado, repetido outras tantas vezes, chegou até a ser decorado. Mas na voz de quem viveu carrega a emoção que o meu relato, de ouvinte, jamais será capaz de reproduzir.
Ainda assim, conto e repito pra mim, escrevo, porque não permito que a sabedoria que me guiou e guia nesta vida não mais o faça.
Vó Ângela sempre conversou comigo de igual para igual, inclusive na infância. Líamos o jornal juntas, completávamos as palavras cruzadas e discutíamos as notícias. Ela me contava sobre os livros que estava lendo, como se vivesse, de fato, cada história. Falava sobre Paris, explicava a queda do Muro de Berlim e relembrava a Copa de 70. Minha vó nunca saiu do país, nem conseguiu completar o ensino fundamental.
Foi em meio a esse universo criado por ela que eu entendi, ali, naquela sala repleta de livros e novelos de lã, que o mundo é também de quem segue sonhando até mesmo sem permissão para isso.
Assim, sempre foi como se ela visse em mim a extensão dos sonhos que, em tempos não tão distantes, sequer pôde cogitar acreditar.
Demorei para compreender que, o que pra mim sempre soou normal e básico, como o acesso ao conhecimento, a liberdade de escolha e o direito ao voto, para minha vó, que estufava o peito ao contar que começou a “trabalhar fora” ainda jovem, soava como conquista.
Vó Ângela, que mesmo sem concluir os estudos, preencheu as faltas com livros e brigou para que todos os filhos estudassem. Formou os seis, todos na universidade federal.
Cresci ouvindo minha avó defender que, mais significativo do que conhecer os próprios direitos é poder exercê-los.
Não conheço profundamente outra realidade senão essa, a de quem já nasceu tão amada e vista que, desde sempre, nutriu o olhar sobre a história do outro com atenção e respeito. Por isso, também, minhas escolhas, decisões e atitudes nada têm de aspirações individuais.
Hoje, minha vó tenta recuperar a capacidade de se comunicar, enquanto eu me tornei jornalista, cria de uma universidade federal também. Vó Ângela plantou, cuidou, regou e ouviu.
Dessa vez, a primeira e única desde 89, quando foram restabelecidas as eleições diretas para presidente da República, minha vó não vai exercer o direito ao voto. Isso só porque as condições de saúde não lhe permitem fazer o que sempre defendeu com unhas e dentes, batendo no peito.
Vó Ângela plantou, cuidou, regou e ouviu. Mais do que isso, se atentou à semeadura, não necessariamente com o intuito de colher, mas sim como quem entendeu tudo.
À sombra do cultivo ancestral, que abaixo de sol e chuva semeou este presente, há ainda quem tente impedir a floração. Eles passarão, porque não podem deter a chegada da primavera.
Vó, vejo agora florescer, inevitavelmente.