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Expressão Plural

Ramil, Clarissa e Erê: outros 20 de Setembro

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Todo 20 de Setembro, o Rio Grande do Sul e nós, os gaúchos e gaúchas, parecemos ser convocados a representar a nós mesmos. Com uma disposição de espírito mais ou menos crítica, voltamos às bombachas, aos cavalos, ao mate, às lanças, aos heróis e à Revolução Farroupilha, ao tempo, ao vento, a Ana Terra e ao Capitão Rodrigo. Não há nada de errado nisso, desde que a tradição, que deve ser viva, ressignificada e reinventada a cada momento dado, não se transforme em obrigação de figurino e a memória não seja confundida com fotografia. Porque há outros modos de se olhar para o Sul. Mercedes Sosa e Jorge Boccanera: “Será posible el Sur?”.

Vitor Ramil encontrou no frio, em uma “estética do frio”, uma chave para pensar a experiência sulista: a distância, o silêncio, a paisagem aberta, a luz particular, uma certa melancolia. “Longe demais das capitais” (Gessinger), estaríamos, nós os gaúchos, no centro de uma outra história. Se considerarmos o Uruguai e a Argentina (e Porto Alegre, Pelotas, Assunção), e aí, então, olharmos de novo para o Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador... Faça esse exercício de redesenho das constelações e veja por si mesmo! É uma imagem poderosa, que evita fazer o que a tradição não raro faz: querer explicar tudo.

É nesse ponto que, acho eu, deve nos interessar o Sul-Realismo de Clarissa Ferreira. Não como uma nova etiqueta, um novo rótulo “essencialista” para o Rio Grande do Sul, mas como uma provocação: e se olhássemos (“será possível?”) para o Sul sem a obrigação de reconhecê-lo na imagem que construímos dele? E se deixássemos entrar na paisagem aquilo que a representação tradicional costuma deixar de fora? O cotidiano, o estranho, o contraditório, o popular, o urbano, o marginal, o feminino, o negro, o indígena, o migrante, o absurdo — enfim, a vida, que nunca se comporta como monumento. Trata-se, note o caro leitor/a, de um gesto que consiste em desconfiar da necessidade de uma imagem totalizante. O Sul-Realismo nos devolveria a um território concreto: nos devolveria a tudo o que justamente nutre as tais reinvenções e ressignificações da tradição. Definições não são fáceis, minha gente...

E então aparece Rafael Erê, com seu Milombaião, abrindo uma outra fresta. A milonga encontra o baião. O Sul conversa com o Nordeste (Chico César: “o beijo que tu me nordestes”). Uma música não precisa abandonar sua identidade para escutar outra: Vitor Ramil já nos havia lembrado. Pelo contrário, talvez seja no encontro que uma identidade descubra sua mais genuína extensão. O frio também dança. Tem alguma imobilidade, é certo, mas sabe ter ritmo, corpo, mistura e deslocamento.

É possível (?) que nós, os gaúchos, tenhamos passado tempo demais tentando provar que somos diferentes. É possível, mesmo, que nós, os gaúchos, sejamos aqueles que não param de querer provar que são diferentes, e que não cessam de se perguntar sobre a natureza dessa diferença. Talvez – e é só um talvez, mas bem grande - devêssemos perguntar outra coisa: diferentes de quem? E para quê? O Rio Grande real sempre foi muito menos puro do que sua mitologia: sempre foi feito de cruzamentos, migrações, conflitos, incorporações, esquecimentos e invenções. A tradição que hoje chamamos de nossa também foi, um dia, novidade, mistura, empréstimo, disputa.

Neste 20 de Setembro, me pergunto (com Ulisses?) se não haveria uma canhada, uma curva do tempo, um lugar para pensarmos menos em nossas façanhas e mais em nossas travessias. Sem abandonar o que somos, mas permitindo que aquilo que somos encontre aquilo que ainda não somos. O 20 de Setembro pode ser uma ocasião para perguntar como nossa identidade foi construída, quem participou de sua construção, quem ficou de fora e o que ainda estamos fazendo com ela. Afinal, fronteiras também podem ter o feitio de janelas.

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