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Expressão Plural

A escola sob julgamento

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Gabriela de Freitas
Por Gabriela de Freitas
Foto Arquivo pessoal

Às vezes me pergunto se nós, como sociedade, ainda sabemos qual é o papel da escola.

Escrevo esta reflexão também a partir do meu trabalho. Como jornalista, acompanho diariamente a rotina das escolas. Converso com professores, diretores, estudantes e famílias. Vejo projetos que despertam a curiosidade dos alunos, iniciativas que aproximam a comunidade da educação e profissionais que dedicam a vida ao ensino. Mas, nos últimos anos, outra realidade tem chamado minha atenção: cresce a desconfiança em relação à escola e diminui a disposição para compreendê-la.

Não é difícil encontrar exemplos. Uma atividade sobre diferentes culturas vira motivo de reclamação. Um livro é questionado antes mesmo de ser lido. Um conteúdo previsto no currículo passa a ser chamado de doutrinação. Antes de perguntar por que determinado assunto está sendo trabalhado em sala de aula, muitos preferem concluir que a escola está errada.

Talvez o problema esteja justamente aí. Muitas pessoas já não enxergam a escola como um espaço de conhecimento. Esperam que ela ensine português, matemática, ciências e prepare os estudantes para o futuro profissional, mas esquecem que educar também significa apresentar diferentes formas de compreender o mundo, desenvolver o pensamento crítico e promover o contato com realidades que muitas vezes não fazem parte do cotidiano familiar.

Conhecer nunca foi sinônimo de concordar. Aprender sobre uma religião não faz alguém seguir aquela religião. Estudar diferentes correntes filosóficas não muda automaticamente as convicções de ninguém. Da mesma forma, conhecer outras culturas não ameaça valores pessoais. O conhecimento não existe para substituir crenças ou opiniões. Ele existe para ampliar a compreensão sobre a sociedade em que vivemos.

É justamente por isso que me preocupa quando determinados conteúdos passam a ser vistos como uma ameaça. Não porque exista debate sobre eles. Debater faz parte da educação. O problema surge quando cresce a ideia de que a escola deveria ensinar apenas aquilo com que cada família concorda. Se seguirmos por esse caminho, deixaremos de formar pessoas preparadas para viver em uma sociedade diversa e complexa para formar indivíduos que conhecem apenas aquilo que confirma suas próprias certezas.

Ao mesmo tempo, percebo que estamos terceirizando responsabilidades. Quando um estudante não demonstra interesse, não realiza atividades ou apresenta dificuldades de aprendizagem, a primeira pergunta costuma ser: o que a escola fez de errado? Poucas vezes a discussão inclui a participação da família ou o compromisso do próprio estudante com o processo de aprendizagem.

Não escrevo isso para apontar culpados. Sei que educar nunca foi uma tarefa simples. Mas também sei que nenhuma escola consegue cumprir sua missão sozinha. Educação é uma construção compartilhada. Exige a presença dos professores, o envolvimento das famílias e a participação ativa dos estudantes.

Talvez seja por isso que me incomode tanto ver escolas e educadores sendo tratados como adversários. Em vez de diálogo, vemos acusações. Em vez de compreensão, julgamentos precipitados. Em vez de parceria, desconfiança. E quem perde com isso é a própria educação.

Também me preocupa quando a escola passa a ser vista apenas como o lugar onde crianças e adolescentes permanecem enquanto os adultos trabalham. Evidentemente ela desempenha uma importante função social, mas reduzir sua existência a isso é ignorar tudo o que acontece dentro dela. A escola é um espaço de convivência, descoberta, formação humana e construção de conhecimento. É ali que muitos estudantes entram em contato com ideias, experiências e oportunidades capazes de transformar suas trajetórias.

Nenhuma sociedade evolui sem investir seriamente em educação. Não existe desenvolvimento econômico, avanço científico ou transformação social duradoura sem escolas fortes e valorizadas. A história mostra que os povos que mais prosperaram foram justamente aqueles que compreenderam que educar não é um gasto, mas um investimento no futuro.

A educação tem o poder de mudar vidas. Ela amplia possibilidades, rompe ciclos de desigualdade, desenvolve autonomia e oferece ferramentas para que as pessoas façam escolhas mais conscientes. Quando desacreditamos da escola, não estamos enfraquecendo apenas uma instituição. Estamos enfraquecendo uma das principais ferramentas de transformação que uma sociedade possui.

Está na hora de pararmos de perguntar o que a escola deveria deixar de ensinar e começarmos a perguntar como podemos ajudá-la a cumprir melhor sua missão. Porque a educação não se fortalece com desconfiança, mas com diálogo. Não cresce com ataques, mas com participação. E não transforma vidas quando trabalha sozinha.

No fim das contas, a pergunta mais importante talvez seja a mais simples de todas: ainda acreditamos que a escola é um lugar de conhecimento? Ou esperamos apenas que ela confirme tudo aquilo em que já acreditamos?

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