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Expressão Plural

Crônica de Erechim: zona liminar

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

 Eu estava, na semana passada, fazendo um exercício de caminhada, virando em ruas de modo improvisado para fechar uma hora redonda. Já tinha escurecido. Cheguei numa rua em que há um canteiro em formato retangular, semelhante a uma pequena praça, mas só com árvores e vegetação: um recanto silencioso e aprazível, um canteiro discreto em uma rua discreta da cidade. A luz de um poste bateu em um objeto azul claro e eu entrei no canteiro: alguém havia colado sobre uma estrutura baixa de concreto (um hidrante antigo? Uma base de marco urbano?) a estatueta de um anjo, uma figura sentada sobre os calcanhares e mãos no queixo, fitando o céu, asas elevadas e olhos tristes. relativamente grande (oitenta centímetros, talvez, parecendo pesada). Me sentei no chão e esqueci a caminhada.

            O que tínhamos ali? O resultado de um gesto espontâneo, muito plausivelmente. Uma pequena, mínima mesmo, sacralização poética de um resto da cidade. Um vestígio técnico transformado em um minialtar. Uma infraestrutura anônima, prosaica, transformada em uma presença literalmente angelical discreta (como a rua, o canteiro) na cidade, não longe do centro. Tem algo de muito belo e de muito silencioso, sobretudo silencioso, nesse gesto, não tem? Não sei bem se estou me fazendo entender (mas sei bem que não estou conseguindo descrever direito o que pensei e senti): alguém havia depositado ali um anjo. Onde? Num resto urbano, técnico, funcional; num tipo de pedestal que perdeu sua função; num vestígio esquecido do “mundo das utilidades”. A vida não é útil (Krenak). Função (mera função?), ali, naquele canto de mundo, se tornou significado.

            Essa transfiguração da sobra mudou aquilo que antes sustentava um poste, uma placa, um objeto de sinalização, sei lá, em algo que agora sustenta uma presença contemplativa. Uma parada súbita no fluxo da vida, um “susto”, um lembrete do mistério. Aquele anjo... observa. Não está apontando uma direção, não está iluminando nada (em sentido comum), não está ordenando o trânsito. Ele apenas observa, ali, sentadinho/a, cuidando da própria vida e testemunhando. E sendo. Sendo o quê? Para mim, um ponto de pausa, um foco de/para a imaginação: um “rasgão” benfazejo na vida cotidiana. Note o caro leitor/a: não é uma igreja e não é também um monumento “oficial”. É um anjo da rua, um “chegado” do Povo da Rua. Quase clandestino. Ninguém construiu um templo ali. A Casa Legislativa não fez nenhum decreto – e nem houve uma grande intervenção. Não houve anúncio ou capa de jornal. Houve só (só?) um deslocamento mínimo, uma intenção e uma super bonder. Um... traço!

            Quero recuperar algo: o anjo está com o rosto apoiado nas mãos – tem jeito e feições de criança. Não se trata de um anjo guerreiro, um Miguel, um arcanjo de espada. Pensei que ele pode ser um anjo de espera (sei que a definição está meio do “pé quebrado). Quero dizer que é um anjo que não impõe transcendência, como anjos de igreja. Aquele ali mais sugere que impõe. como um daqueles personagens silenciosos de filmes de faroeste ou de kung-fu cuja presença fala por si. Um guardião discreto, por assim dizer. Sim, porque aquele altar clandestino, em espírito “cristianismo primitivo” total, perto de Jesus como talvez nenhum outro, nasceu onde a cidade certamente esqueceu algo.

            Uma pedra que foi deslocada. Um toco de árvore. Uma base de poste (se for) abandonada. Uma flor, uma vela, uma... imagem. O invisível e o clandestino sussurram desde um canteiro, um campo pequeno (!) que subjaz a um espaço urbano que até organiza, mas não acolhe – talvez esse seja o seu esquecimento. Um anjo em um espaço comum: comum de “comum” mesmo, e comum de comunitário. De natureza liminar, o anjo do canteiro trouxe o sagrado dos espaços institucionalizados para a rua – fazendo inclusive o caminhante desacelerar o passo, respirar mais fundo, mais “baixo”. Na mitologia de Star Wars, ele representaria um ponto da Força esquecido no meio da galáxia. Dono de uma alquimia secreta, o anjo do canteiro é um anjo raiz: não quer seguidores, prosélitos. Só quer permanecer ali, quase em zazen, fazendo os seus “nadas”.

            Ah! E não, não direi o nome da rua e nem onde fica o canteiro: minha oração (e meu combinado com o anjo) foi a de respeitar a clandestinidade e o caráter liminal do altar clandestino e do gesto que o criou.

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