Dia desses, em suas redes sociais, o escritor e filósofo sino-americano Deng Ming-Dao recomendou a leitura de um artigo publicado no jornal The Guardian pelo professor de História na Universidade de Princeton Graham Burnett (e outros), intitulado “Como podemos nos defender da nova praga do fraturamento humano?” – e fez considerações a respeito. O artigo usa o termo fraturamento (“fracking”) no sentido de mesmo de “fraturamento hidráulico”, a “técnica de extração não convencional de combustíveis fósseis (gás natural ou petróleo) que envolve a injeção de água, areia e produtos químicos sob alta pressão no subsolo para quebrar rochas e liberar o gás”, aplicando-o ao que as Big Techs estariam fazendo com nossa atenção.
Traduzo e trago à atenção do caro leitor/a um trecho do artigo original e, em seguida, as ponderações que Deng Ming-Dao elaborou, as quais fazem incidir sobre o tema da Economia da Atenção – de que já tratamos neste espaço mais de uma vez – uma luz pragmática, interessante.
O trecho: “Estima-se que 70% da população humana da Terra possua um smartphone, e esses dispositivos constituem cerca de 95% dos pontos de acesso à internet no planeta. Globalmente, em média, as pessoas parecem passar quase metade de suas horas acordadas olhando para telas, e entre os jovens do mundo desenvolvido, o número é consideravelmente maior.
Novas tecnologias tornam possíveis novas formas de exploração. Plataformas digitais em escala social tornaram-se uma nova maneira de extrair dinheiro dos seres humanos. Este artigo chama isso de “fraturamento humano”. Assim como as empresas de fracking de petróleo bombeiam detergentes de alta pressão e alto volume no solo para forçar o petróleo à superfície, os “fraturadores humanos” bombeiam fluxos de alta pressão e alto volume de conteúdos viciantes e maximamente disruptivos gerados por usuários, para forçar uma lama de atenção humana à superfície e levá-la ao mercado. Essa extração da atenção humana real rouba nossa capacidade de cuidar, pensar e entregar nossas mentes a nós mesmos, ao mundo e uns aos outros. Devemos nos unir e dizer não aos fraturadores humanos. Nossa atenção nos pertence, e devemos usá-la para construir o mundo em que queremos viver.
Ming-Dao: “Preste atenção!”, diziam nossos pais. “Preciso que todos me deem sua atenção!”, diziam nossos professores. “Atenção, por favor!”, dizia o locutor. “A meditação começa com a atenção”, dizia o mestre. Percebeu o subtexto? Atenção precisa ser dada. O fraturamento da atenção não acontece com um cano inserido no solo, mas explorando nossa inclinação natural a buscar detalhes importantes. Na maioria dos casos, essa ‘importância’ é ilusória e desonesta. Ironicamente, até mesmo este artigo veio acompanhado de uma enxurrada de anúncios e iscas de distração para capturar nossa atenção.
Os autores pedem um movimento social — e isso é válido. Mas podemos fazer algo agora mesmo. Controle os parâmetros de suas redes sociais. Coloque o telefone de lado. Leia um livro. Leia um livro longo, em que você precise lembrar o que aconteceu na página 1 para compreender a página 400. Escute seus filhos. Escute seus filhos até que tenham dito tudo o que desejam dizer. Responda ao seu cônjuge imediatamente. Desligue a tevê. Observe a arte, a arquitetura, a natureza, o traçado da cidade em sua caminhada diária. Observe o que não está lá — as pessoas que se foram, os marcos da infância que desapareceram, as mudanças na moda. Há mil coisas a fazer além de rolar a tela.
E junto com prestar atenção, pense por si mesmo. Tire suas próprias conclusões — não porque você queira ser um influenciador, mas porque é assim que você permanece um ser humano independente — e íntegro.”