Depois de regulamentos confusos nas edições anteriores, a Copa do Mundo de 1958, disputada na Suécia, enfim adotou um modelo simples e fácil de entender: fase de quatro grupos em que todas seleções se enfrentam, depois confrontos eliminatórios a partir das quartas de final. O formato deu mais clareza ao público e consolidou a estrutura que se tornaria padrão nas Copas seguintes.
Apesar do avanço organizacional, o torneio ainda refletia as desigualdades do futebol internacional da época, já que nenhum time africano ou asiático participou do Mundial. As seleções que se classificaram junto à Suécia foram: União Soviética, Inglaterra, País de Gales, Escócia, França, Iugoslávia, Hungria, Alemanha Ocidental, Áustria, Tchecoslováquia, Irlanda do Norte, México, Brasil, Paraguai e Argentina. O equilíbrio técnico foi considerado alto, com a estreia dos soviéticos e o “futebol científico” e a presença das quatro equipes britânicas. Em compensação, os húngaros já enfrentavam a decadência, após o vice em 1954.
O Brasil chegou à Suécia carregando um peso que ia além do futebol. O trauma de 1950 ainda era recente, e o país convivia com aquilo que o escritor Nelson Rodrigues definiu como “complexo de vira-latas”: a sensação de inferioridade diante das grandes potências, especialmente europeias. A máxima era de que a seleção oscilava entre dois extremos: os “bons”, que tinham talento, mas faltavam seriedade, e os “sérios”, organizados e disciplinados, mas sem genialidade. Faltava unir talento e equilíbrio emocional.
A preparação para 1958 buscou atacar essa fragilidade. Pela primeira vez, a seleção contou com acompanhamento psicológico, planejamento detalhado e uma mudança profunda de mentalidade, sob a liderança do presidente da CBD, João Havelange. A ideia era de que o Brasil precisava acreditar que podia vencer. Aquela Copa marcaria o início dessa virada, com atletas como Didi, Vavá e Nilton Santos.
Dentro desse contexto surgiu Pelé. Jovem, ainda desconhecido internacionalmente, ele chegou à Copa mas não atuou nas duas primeiras partidas. Outro que apareceu no elenco foi Garrincha, mas também fora do time titular. A entrada dos dois na equipe aconteceu durante a competição e mudou completamente o Brasil. Garrincha trouxe o improviso, o drible humilhante e o caos para as defesas adversárias. Pelé acrescentou técnica e uma maturidade impressionante para sua idade, 17 anos.
A campanha brasileira começou com uma vitória segura por 3 a 0 sobre a Áustria. Em seguida, o Brasil empatou em 0 a 0 com a Inglaterra, no primeiro empate sem gols da história das Copas do Mundo. No último jogo da primeira fase, Pelé e Garrincha estrearam e a seleção venceu a União Soviética por 2 a 0.
Nas quartas de final, o Brasil superou o País de Gales por 1 a 0, com gol de Pelé, o primeiro dele em Copas do Mundo. Na semifinal, veio um dos jogos mais emblemáticos da campanha: a vitória por 5 a 2 sobre a França, com show de Pelé, que marcou três gols.
A final foi disputada contra a anfitriã Suécia, com uma história emblemática que a antecedeu. Como ambos os times tinham o uniforme principal amarelo, a seleção brasileira precisou comprar às pressas camisas azuis em lojas de Estocolmo, que receberam o escudo da CBD horas antes da decisão.
No estádio Rasunda, o Brasil vestiu o “azul do manto de Nossa Senhora” e venceu por 5 a 2, de virada, conquistando seu primeiro título mundial. Pelé marcou dois gols, um deles dando um histórico chapéu no zagueiro, e tornou-se o mais jovem campeão da história do torneio.
Todos conheceram ali o Rei do Futebol e, a partir daquele momento, o Brasil encontrou sua identidade.