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Expressão Plural

Começos (final): a Corujinha

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

 O mês de janeiro é, já, um cometa de que só se vê a cauda. Estamos, assim e então, concluindo com esta coluna o arco de quatro textos em que refletimos de diversos modos sobre a circunstância do começo, dos começos. Neste último trecho do percurso, porém, faço uma mudança: em vez de terminar com o Louco do Tarô Mitológico, como havia concebido inicialmente, quero, como professor e pai de um adolescente que faz quinze anos neste domingo, usar o Tarô das Corujas, de Pamela Chen e Elisabeth Alba (2023), que é cheio de referências pedagógicas e filosóficas – em razão do uso simbólico do animal. Está bem? Prossigamos...

            Numa representação radical da ideia de começo(s), o Louco, o arcano zero do tarô, é, nesta versão e muito adequadamente, um filhote de coruja. Na ilustração, ela encontra-se prestes a empreender o seu primeiro voo, sua primeira saída da árvore, da Árvore. Na narrativa, temos que ela perscrutou o mundo – o “fora do ninho” – por um tempo apreciável, e agora está decidida (Deng Ming-Dao: a decisão é o que marca os começos) a saltar: imaginando a que bando pertence (!) e no que irá se tornar, ela precisa descobrir/explorar/fabricar sua identidade. “Sabe que é algo que deve fazer.”

            Os olhos de um pai e professor buscam com apreensão, na imagem, a figura de uma coruja adulta – mas ela não está ali. Haverá alguma, decerto, mas ela definitivamente não está ali. “Entre o ninho e o céu”, o útero, a casa, a escola e o mundo, a corujinha ocupa agora um espaço liminar. Infere-se a presença, talvez e implicitamente, não de uma pedagogia do adestramento, ou do medo, mas de uma pedagogia da travessia – assim como de uma ética do risco (é a primeira luta em um torneio infantil de judô).

            Mesmo sabendo, porém – ou por isso mesmo -, que errar é parte da coisa, do voo, que errar é ajuste fino, não é falha moral, o Louco, aqui, é um aprendiz genuíno: não começa “do zero”, não é tábula rasa. Existem competências latentes, existe uma curiosidade pelo mundo e pelas coisas do mundo razoavelmente amadurecida, existe o desejo de experienciar a vida. Não é o ignorante: é o aprendiz em estado de prontidão. Educação, aqui – pense na Escola Fundamental -, é levar o estudante, a estudante, até esse ponto. O professor/a, um guardião do limiar (e, portanto, do tempo de amadurecimento, não do conteúdo), porque estudar não é acumular informações, mas, justamente, cruzar o limiar. Cruzar o limiar: chegar-se a um lugar, um momento, em que não se possa não o fazer. Eis a educação. O salto, assim, é uma aprendizagem experiencial. E eis a docência, a parentalidade: saber quando o salto é possível. Há um tempo de ninho – e ninho não é destino. A coruja adulta não está lá, é verdade, mas ela não poderia saltar no lugar do filhote, de qualquer modo (pedagogia da autonomia? Escola como ninho? Sociedade sem escola?). Educar é sustentar o galho.

            É louco (!) saber que o sentido só emerge depois do salto, não é? E, se educar é oferecer trilhas sem sequestrar o destino, aquele sentido, aqueles sentidos que emergirão, ainda que partilhados no futuro, já não exatamente nos pertencem ou pertencerão; já não inteiramente nos dizem respeito ou dirão. Outra coisa louca, contudo, é que mestres e pais, e mães, têm uma dupla posição: como somos e existimos em rede (a árvore é parte da floresta), guardamos o limiar, de um lado, e, de outro, fazemos as nossas próprias travessias também.

            Refletindo sobre como concluir este texto, nem cheguei a fazê-lo, pois, sem que eu me apercebesse, a corujinha havia saltado e, feliz, piava alto: “ninguém solta a mão de ninguém!” Somos um bando, gente, e muitos outros.

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