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Expressão Plural

Começos (III): o Louco

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Promessa é dívida, caro leitor/a. Trago hoje a seguinte “brisa”: iremos cruzar, com a leitura do ensaio “Começo”, de Deng Ming-Dao, que iniciamos há dois sábados, uma apreciação da carta/arcano zero do Tarô, o Louco, mobilizando, assim, uma biblioteca inteira. Está bem? Se tu deres um google em busca da imagem no celular para acompanhar a leitura, vai ser bem legal.

​O Louco está posicionado antes do caminho, mas já se encontra em movimento: seu segredo (seu mistério, quer dizer, seu arcano) é o movimento. Ele já começou. E não há propriamente um plano ou um mapa: no que poderíamos denominar uma confiança pré-conceitual em si mesmo, nos outros e no mundo (as três ecologias de Félix Guatarri), ele não sabe para onde vai – só vai, sem preocupações ou maiores preparações. Inclusive, em diversas representações, sequer percebe que caminha à beira de um precipício. Se Deng Ming-Dao dizia “este é o momento de embarcar”, situando o embarque em algum momento próximo-futuro, o Louco... já embarcou. Osho sugere que o Louco não separa mundo interior e mundo exterior: assim, os “sinais auspiciosos” que tínhamos no ensaio do filósofo sino-americano não são “sinais auspiciosos”, são ressonâncias. A base da confiança do Louco.

​A literatura costumar apontar, no Louco, três atributos: fé, inocência e otimismo. O chão (o próprio caminho) o sustentará; há ausência de cinismo em seu coração; e ele está inteiramente aberto. Não se trataria de alguém inexperiente, apesar de bem jovem: o Louco não é jovem porque não viveu, é jovem porque não endureceu. Como diria o Che (que não está muito longe do arquétipo em sua primeira viagem pela América do Sul, antes de concluir o curso de medicina), o Louco pode até endurecer-se em sua jornada, mas será essencial que não perca a ternura.

​O Louco traja roupas relativamente simples e carrega pouco ou nada em sua viagem: Deng Ming-Dao sugeria que o momento do começo, dos começos, de cada começo, é um momento em que estamos “sós e desnudos”: “sós e desnudos, devemos enfrentar todas as atribulações da vida.” Talvez seja defensável a ideia de que o Louco vence – se vencer -, não porque se encontra só e desnudo, mas porque não está sobrecarregado. Estoico, só carrega o que depende ele; taoísta e talvez leitor de Sun Tzu, não luta contra o terreno.

​Terá o caro/a leitor achado o Louco um tanto imprudente ou mesmo irresponsável? A leitura casada com o ensaio de Ming-Dao matiza isso com elegância: “Para começar, devemos tomar uma decisão.” Bem: o Louco decidiu. Ele apenas não decidiu controlar o processo. Isso o aproxima do wu wei taoísta: agir sem forçar, caminhar sem endurecer o passo.

​E quanto à passagem da rocha que se torna viva e que responde a nosso propósito? Essa parte é difícil: teríamos de perguntar o significado disso ao alquimista de “A obra em negro”, de Marguerite Yourcenar. Mas podemos oferecer os nossos vinte centavos de interpretação. Em chave taoísta, como a que estamos propondo, o Louco fala com o mundo sem intermediários: quando a presença é total, até o inanimado responde. No Tarô, o Louco fala com o cão (eu tinha mencionado que ele não está inteiramente sozinho?), conversa com o vento (como São Francisco) e pisa a beira do abismo sem desespero. Não porque ignore o perigo, mas porque não está dividido.

​O Louco do Tarô é, assim, o espírito certo para qualquer começo. Ele não propriamente inaugura um ciclo cronológico – um novo ano, nosso pretexto neste arco de textos -, mas um estado de relação com o tempo. Sempre é tempo de começar. Caminhemos leves, se pudermos. Como ensina o mestre Ailton Krenak, é preciso aprender a pisar leve na terra, na Terra. Não expliquemos demais, se pudermos. Não carreguemos o que já cumpriu seu papel. Como nos desenhos animados antigos, o chão aparecerá sob o pé que se move. O preto velho mais pop do Brasil assegurou: a fé não costuma faiá...

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