Faleceu na tarde deste sábado, 17, aos 94 anos em Erechim, a poetisa Nelly Todeschini Cantele. Estava internada há dias na UTI do Hospital da Unimed.
Nascida em abril de 1931, em Bento Gonçalves (RS), mudou-se para Erechim ainda aos seis meses de idade. Desde então, construiu com a cidade uma relação afetiva profunda, passando a considerá-la sua terra por escolha e amor.
Anos depois, iniciou sua trajetória escolar no Colégio São José, das Irmãs Franciscanas, onde cursou os cinco anos do então chamado Primário. Foi nesse período que, ao aprender a unir as letras e formar palavras, descobriu o universo da escrita e da literatura, um encantamento que jamais a abandonaria. Os primeiros textos e poesias, ainda tímidos, eram guardados no fundo de uma gaveta.
Ao ingressar no Ginásio, a escrita deixou de ser apenas um exercício pessoal e passou a se revelar como vocação. Um episódio marcante ocorreu quando a professora Irmã Agnétis Possápp propôs uma redação com o tema “Meu quarto”. Esquecida de realizá-la em casa, foi orientada a escrevê-la em sala de aula. Para sua surpresa, na aula seguinte, o texto foi lido em voz alta pela professora como exemplo para a turma.
Outro momento decisivo aconteceu quando, em nova redação escolar, recebeu nota zero da professora Irmã Celeste. Ao questionar o motivo, ouviu que não se atribuía nota a “matéria copiada”. Longe de desanimar, já que o texto era de sua autoria, o episódio fortaleceu sua confiança e reafirmou o compromisso com a autenticidade da escrita.
A partir daí, passou a publicar textos e poemas em veículos de comunicação, de Erechim e Porto Alegre. O reconhecimento veio por meio de elogios constantes. Após concluir o Ginásio, cursou Contabilidade no Colégio Marista Medianeira, opção possível à época, já que Erechim não dispunha de outros cursos e a família não permitia estudos fora da cidade.
Aos 22 anos, casou-se com Albino Cantele (falecido). Do casamento nasceu a filha única, Vivien, que trouxe novos significados à sua vida. Mais tarde, a chegada do neto Lucas consolidou laços afetivos que se tornaram alicerce e razão de viver.
Durante muitos anos, manteve seus escritos guardados, até que, em 1987, publicou sua primeira obra, Carícias do tempo, marcando oficialmente sua estreia literária. A partir desse momento, seguiu produzindo livros e textos, entre eles O Segredo das horas (1994); Voo do Entardecer (2001); Se o luar e as primaveras persistirem (2008) e Tempo, Amor ... e Vida (2018).
Também integrou as coletâneas Autores de Erechim (volumes 1 e 2) e a Antologia Cultural de Erechim, organizada pelo Café Cultural. Em 2011, obteve o primeiro lugar em concurso promovido pela CDL, com a poesia “Mãe”.
Foi Patrona de Honra do Café Cultural de Erechim e, em 2008, patrona da XI Feira do Livro do município.
É membro fundadora da Academia Erechinense de Letras, ocupando a Cadeira nº 23, conquista que sempre definiu como a realização maior de seus sonhos.
Para ela, escrever é essencial: “transforma a vida em sonho e o sonho em realidade, revela a alma e ameniza as agruras do cotidiano”, relatou no livro Mulheres de Erechim, laçado em 2024,
Defende que não há mundo possível sem livros, pois são eles que resgatam o tempo, estimulam a inteligência e mantêm vivo um passado que não deve ser esquecido, ao mesmo tempo em que iluminam o presente.
A vida, segundo sua própria experiência, ensinou que o amor é capaz de superar erros, medos e pecados, e que apenas o amor permanente, incondicional e constante é capaz de devolver à existência a alegria e a vontade de viver.
*Adaptado a partir de publicação de texto de Nelly Todeschini Cantele, no livro “Mulheres de Erechim”, lançado em 2024, de autoria de Helena Confortin, Zeni Teresinha Bearzi, Neusa Cidade Garcez, Maria Vanda Krepinski Groch e Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa.