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Expressão Plural

Começos (II)

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Na coluna anterior, e em razão deste início de ano que, ao que tudo indica, nasceu irritadiço e chutando, iniciei um exercício de leitura comparada envolvendo um pequeno arco de textos – o caro leitor/a estará lembrado? Nesta segunda parte de possíveis quatro, quero desenvolver em todas as direções pertinentes o brevíssimo ensaio de Deng Ming-Dao intitulado “Começo”, que eu trouxe na íntegra no sábado passado. Não será necessário, contudo, recuperar aquela coluna: os trechos que irei explorar estarão devidamente situados aqui, de modo que reste resguardado o sentido geral do ensaio.

            Eu propunha, para começo de conversa, que, diferentemente do que normalmente ocorre em textos de fim e de início de ano, o autor não falava sobre metas, mas sobre decisão. E que isso, esse deslocamento de chave, era crucial. Afinal, se “este é o momento de embarcar”, é preciso fazê-lo com o corpo e a mente inteiros. Eu salientava, também, que no “Tao Te King”, de Lao Tsé (e em oposição às costumeiras “intenções de ano novo”), começos genuínos só ocorrem se e quando cessam os excessos de desejo, de intenção: “O sábio não força; por isso nada fica por fazer.” Embarcar com o corpo e a mente inteiros, assim, habitar o presente com densidade e experiência real. Compreender, sim, como o passado ainda pulsa, mas sem morar nele; e oferecer energia diária ao futuro, mas sem ansiedade de controle. De qualquer modo, cavalgar o tempo presente.

            Para Ming-Dao e para a tradição taoísta, ch’na e zen como um todo (essas filosofias e sistemas éticos e de crença que ignoramos tanto), começar não seria necessariamente criar algo novo, mas posicionarmo-nos no flow, no fluxo... certo. O embarque é silencioso e discreto, e bastaria reconhecermos que o caminho à frente está aberto e deixarmos de resistir (ah! as resistências...). O ensaio salientava que “todos os sinais auspiciosos estão presentes”: como interpretar isso? Uma leitura possível, respeitando o contexto dessa literatura, é a de que não haveria impedimento essencial para começarmos – e esse “essencial” é bem importante. Não haver impedimento essencial já é muito, ainda que não signifique que tudo será fácil.

            O texto nos punha, ainda, diante de uma espécie de paradoxo: “Embora possamos estar concentrados na magnífica viagem, todas as coisas estão contidas neste primeiro momento.” Repare: há esperança e há contenção – e essa é a parte, aliás bastante zen, que me fez lembrar do “Louco” do Tarô (“shoshin”, o principiante), do qual voltaremos a falar: o começo contém tudo, sem que prometa nenhuma coisa, nada; existe “fé”, na falta de outra palavra, mas a história ainda está por ser experienciada, feita, escrita; e há, sobretudo, em alguma medida, inocência. A decisão que deve ser tomada para encetar esse começo, assim, não é expectativa, mas compromisso. O texto não fala de desejo, nem de vontade passageira. “Sós e desnudos” (um trecho radical do ensaio) pode significar que essa decisão pede verdade: não se trata de uma “performance”.

            Agora: e aquelas imagens de uma rocha que se torna viva pela devoção e de montanhas e vales que reverberam o som do propósito, como interpretá-las? É uma passagem belíssima: “Dizem que, se escolhermos orar para uma rocha com devoção suficiente, mesmo essa rocha se tornará viva. Da mesma maneira, assim que decidirmos nos comprometer com a vida, mesmo as montanhas e os vales reverberarão o som de nosso propósito.” Veja: Deng Ming-Dao não é um supersticioso: como bom taoísta, ele não nega o simbólico, mas o desmistifica, preservando-o. Sua crença é a de que o mundo “ecoa”, dá-se à leitura; não, não “conspira”. Talvez ele seja, também, um bom estoico. O que parece estar dizendo é simples e profundo: cultive um compromisso silencioso e diário com o que te é essencial; e esteja disposto a estar inteiro no caminho.

            O começo, caminhante – é claro -, já aconteceu.

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