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Expressão Plural

Pedras e corações gelados

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Gabriela de Freitas Machado.jpeg
Por Gabriela de Freitas
Foto Arquivo pessoal

Depois de domingo, olhar para o céu virou receio. Surgiu o medo de que o mesmo caos se repetisse. Pedras geladas destruíram telhados, estruturas que cobrem nossas casas, protegem nossas famílias e simbolizam segurança. Em poucos minutos, tudo desabou. A proteção que temos acima de nós, quase sempre invisível na rotina, se rompeu e deixou milhares de pessoas em situação de vulnerabilidade. Quando o teto que abriga também cai, caímos junto com ele.

Retomar a semana como se fosse um dia comum tornou-se impossível. Não houve quem não enfrentasse algum tipo de problema, direto ou indireto. O temporal provocou um efeito dominó: o trabalhador ficou vulnerável, mas o empregador também. Como esperar que alguém volte ao trabalho com tranquilidade quando sua casa está descoberta, quando familiares e vizinhos foram afetados, quando o próprio conceito de lar ficou abalado? Em momentos assim, o cotidiano deixa de funcionar como antes. A preocupação com a sobrevivência passa a ocupar todos os espaços.

A segunda-feira em Erechim escancarou essa realidade. Ruas e bairros exibiam casas cobertas por lonas, móveis expostos ao sol, carros detonados, pedaços de telhas espalhados. Diante desse cenário, frases prontas sobre recomeço parecem pequenas diante da dureza do que foi perdido. Muitas pessoas lutaram durante anos para conquistar cada objeto, cada melhoria, cada detalhe que dava forma ao lar. Ver tudo arruinado em minutos é difícil de aceitar, ainda mais para quem batalhou tanto para ter o mínimo.

Ao mesmo tempo, também surgiram movimentos de solidariedade. Muitos se mobilizaram para ajudar, e os olhares se voltaram para cá diante da gravidade da situação. Pessoas que talvez nunca tenham se encontrado dividiram esforços, doações e tempo. Essas atitudes fazem com que a fé na compaixão humana não se perca, mesmo em meio ao caos. São gestos que mostram que, apesar dos estragos, ainda há quem se importe genuinamente com o outro.

Mas, em paralelo a isso, também existem situações que desgastam. Há quem ignore a dor alheia, quem espere que a rotina volte imediatamente ao normal, quem trate perdas como simples detalhes. Empatia não é automática. Exige sensibilidade, atenção e disposição para entender o impacto que um temporal como esse deixa na vida das pessoas — impacto que não termina quando a chuva passa.

Depois de tudo, percebi que, mais geladas do que as pedras que caíram do céu, são algumas atitudes humanas que ainda encontramos pelo caminho. Mas também percebi que, no meio dessa mesma tempestade, surgem mãos estendidas que evitam que tudo desabe de vez.

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