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Expressão Plural

Morsas que caem e os olhos dos elefantes

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

 O Antropoceno (que a União Internacional de Ciências Geológicas afirma que não existe) nos alcançou. Eu estava jogando bola com meu filho quando a primeira pedra de gelo caiu bem pertinho dele. “Caraca!”, exclamou, apanhando a pedra no chão. E veio a segunda, a terceira, a quarta, e então eram legião, do tamanho de ovos grandes. Ou de maçãs pequenas. Apanhamos as mochilas e corremos para nos abrigar, bem em frente aos Bombeiros, atônitos diante da escala que a coisa tomou. Do barulho. Ainda bem que não tem raios e relâmpagos, lembro de ter dito.

            O Antropoceno (que a União Internacional de Ciências Geológicas afirma que não existe) nos alcançou. No meu celular, uma hora depois, começaram a chegar mensagens de pessoas conhecidas, alunas e alunos em desespero, o telhado de suas casas destruído. Pequenas enchentes no interior de cada residência, de cada coração. Tudo molhado. E era tempo de não se saber bem o que dizer ou fazer, tempo de palavras de ajuda e amparo, e tempo de impotência também, ao mesmo tempo que corríamos para casa preocupados sobre se havíamos sido também afetados de algum modo, e sobre como aquilo acabaria – e sobre o depois.

            O Antropoceno (que a União Internacional de Ciências Geológicas afirma que não existe) nos alcançou. Quando o Buda era perguntado a respeito de questões filosóficas, metafísicas – o mundo é eterno? Há vida depois da morte? -, recusava-se a responder. Para ele, os seres humanos são como uma pessoa atingida por uma flecha envenenada, em torno da qual outras pessoas, em vez de retirar-lhe a flecha, entram em um debate sobre seu material e as condições de sua fabricação, e sobre de onde veio e de quem, e porquê. A prioridade, é óbvio, é cuidar da pessoa ferida. O tempo de reflexão, contudo, como a Coruja de Hegel, que só levanta voo depois de transcorrido o dia, ao entardecer (depois da História), chega. Aliás, vem chegando há tempos. Junto com a História, parte da História. É preciso reconstruir e é preciso saber o que houve.

            Mas o Antropoceno (que a União Internacional de Ciências Geológicas afirma que não existe) havia nos alcançado. Como já havia alcançado minha família em Porto Alegre, em 2024. Chegando em meu apartamento e verificando que estava tudo bem, ainda que o prédio tenha sido bastante atingido, eu, porém, não queria saber de filosofias e reflexões e porquês. Ainda assim, respondendo a mensagens e tentando entender o alcance do fenômeno pelas redes sociais, dois poemas saltaram da tela em scrolling: printei-os para mais tarde. Quando as palavras nos faltam e o tempo é um tempo de aflição – e depois de a flecha retirada -, a poesia sempre vem em nosso socorro. A autora é Adriane Garcia.

“Antropoceno

Está parecendo que eu odeio a humanidade / Desde que vi as morsas caindo de montanhas/ Em que nunca deveriam ter subido/ As morsas quicando/ Uma, duas, três vezes e caindo estateladas/ No meio da multidão de morsas/ Na costa da Rússia, eu que nunca estive lá/ Chorei como quem passava a amar somente os bichos/ E as plantas que cultivo no meu apartamento/ Sob um pedacinho de sol/ Que os arquitetos deixaram por compaixão/ Ou por esquecimento/ Soube então que faltavam geleiras às morsas/ E que elas agora se viravam nas pedras/ Amontoadas, que algumas subiam as montanhas e o resultado já disse/ Elas caem e fica parecendo que eu odeio a humanidade/ Como se eu não soubesse que gente/ Também é bicho/ Como se eu não entendesse que é preciso amar a minha própria espécie/ Fica parecendo que eu não compreendo/ Que nós caímos quando a morsa cai.”

“Rugas

O comercial da TV nos distrai/ O rolê no shopping nos distrai/ As compras online nos distraem/ E o desconto de cinquenta por cento/ Se você for o leitor número mil/ Deste poema/ A nova escova/ O novo aparelho celular, o novo carro/ Ter muito dinheiro/ Não ter dinheiro/ Também distraem/ Das três notícias mais importantes que não saíram nos jornais desta semana: nossa vida está nos minúsculos pés das abelhas/ Se você não vê mais borboletas veja catástrofe/ É nossa a velhice que aparece nos olhos dos elefantes.”

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