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Expressão Plural

O jardim das margaridas invisíveis

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Gabriela de Freitas Machado.jpeg
Por Gabriela de Freitas
Foto Arquivo pessoal

Diziam que o Jardim do Grande Sol era o mais bonito de todos. Não por causa das plantas, claro — mas porque o Sol era famoso.

Brilhava forte, aparecia em todos os retratos e discursos, e tinha milhares de admiradores que juravam que ele era o responsável por toda a beleza do lugar.

Havia, porém, pequenos detalhes nunca mencionados nas cerimônias:

No solo do jardim viviam as Margaridas Invisíveis — flores modestas, que não estampavam murais nem discursos, e que com um pouco de esforço poderiam até ser ignoradas.
Eram elas que, silenciosamente, viravam-se para o Sol todos os dias, absorviam luz, alimentavam a terra e mantinham o jardim vivo.

Nem pediam muito: um pouco de água, às vezes um “obrigado”, quem sabe um reconhecimento de que existiam.

Mas recebiam migalhas — gotas contadas, elogios vazios, sorrisos de ocasião quando alguma visita passava.

O Sol, vaidoso, costumava dizer:

— Se alguma Margarida não quiser ficar, substituo por outra. Há milhares que fariam o mesmo.

E assim, convencidas de que eram facilmente substituíveis, as Margaridas seguiam silenciosas.

Algumas até acreditavam que não mereciam mais do que recebiam.

Afinal, era o Sol quem brilhava — elas apenas sustentavam o brilho.

Mas um dia, cansadas de girar sem serem vistas, resolveram algo simples e revolucionário:
pararam de olhar para o Sol.

Não houve protestos, nem gritos, nem placas. Apenas viraram suas pétalas para outro horizonte — um pouco de sombra acolhedora, uma brisa que não exigia aplausos, talvez até um canto onde flores fossem tratadas como mais do que decoração descartável.

De repente, o jardim começou a perder cor. Visitantes franziram a testa.

Os discursos diminuíram.

E o Sol… bem, o Sol continuou brilhando, claro, porque o Sol sempre brilha —
mas, pela primeira vez, percebeu que seu brilho sozinho não fazia jardim.

Tentou atrair de volta as flores com promessas vagas, elogios calculados, e até um balde extra de água — contado, milimetrado, porque generosidade demais não fica bem na vitrine.

Mas as Margaridas aprenderam algo perigoso: uma margarida que descobre seu valor nunca mais finge que não sabe.

E assim, o jardim do Grande Sol continuou iluminado.
Só deixou de ser vivo.

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