Eu tenho uma passagem de Norberto Bobbio tatuada na mente. Ela é assim: "O pessimismo com o qual chego aos últimos anos de minha vida pode ser dividido em três dimensões. Pessimismo cósmico: o mal existe. Pessimismo histórico: o mal triunfa sobre o bem. E pessimismo existencial: é impossível deixar a caverna." Desdobrando-se em camadas, trata-se de uma formulação que, a despeito de sua beleza estético-filosófica, representa como que um deslizamento de neve e gelo e fogo, uma avalanche que nos atinge e encobre irremediavelmente – sem saída.
O que fazer? Deng Ming-Dao, numa clave cultural diferente e com o pragmatismo típico dos velhos taoístas, sugere que lidemos com o monstro do mal em uma escala de menor dimensão, reconhecendo-o e enfrentando-o na arena que nos é mais sensível e próxima: a de nossa vida cotidiana. Para ele, os demônios que entram em nosso círculo devem ser expulsos. Cito:
“Não importa em que mundo você penetre - escritório, escola, templo, prisão ou as ruas -, há um submundo habitado por demônios. São as pessoas avarentas, agressivas, sádicas e cínicas. Elas não apenas tiram vantagem dos outros sem remorsos como também se deliciam com isso. Têm prazer no sofrimento dos outros. Não é possível explicar por quê. O fato existe, sem nenhum significado metafísico nem outras ramificações. Não é carma, não é destino. Se essas pessoas decidirem atacá-lo, isso será incidental. Ou você luta, ou é exterminado.
A compaixão e a humildade podem estar entre as virtudes humanas mais valiosas, mas não são úteis no conflito. Uma bela estátua de ouro do seu deus mais adorado é um tesouro, mas você não a usa como arma. A virtude deve ser valorizada no contexto adequado: numa batalha, apenas uma espada servirá. Quer se trata de um ataque físico - assalto, estupro, assassinato -, quer se trata de um ataque mental - intrigas em negócios, abuso emocional -, você deve estar preparado. É melhor preparar-se para o conflito aprendendo tanta autodefesa quanto possível. Você não se tornará um valentão nem um monstro, mas aprenderá que pode reagir a qualquer situação. Se nunca for atacado, isso será maravilhoso. O treinamento, ainda assim, irá ajudá-lo a resolver seus medos, suas inibições e suas angústias. Em caso de conflito, ninguém, nem mesmo um veterano, jamais tem certeza de sair vivo de um confronto. Mas decide continuar e dar a si mesmo uma chance de luta. Isso, em si, já é um triunfo sobre o mal."
E não é que quando a avalanche parecia inteiramente sem jeito abriu-se uma fenda pela qual a luz passou? O simples (?) decidir erguer-se, continuar e dar a si mesmo uma chance de luta, como constituindo por si só um triunfo sobre o mal. Um “não” firme, enunciado em nível existencial, para usarmos os termos de Bobbio. Mas que, uma vez pronunciado, não para por aí: muda a vida e, assim, ecoa na história, alcançando – quem sabe? – o próprio Cosmos.