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Expressão Plural

Luis Fernando Verissimo (I)

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Eu quero escrever sobre Luis Fernando Verissimo, falecido no sábado passado aos 88 anos. Para isso, decidi, em vez de tentar “contextualizar” autor e obra, partilhar com o caro leitor/a duas impressões de leitura e deixar o próprio autor “falar”, está bem?

            A primeira impressão: Luis Fernando Verissimo talvez tenha sido o primeiro escritor “adulto” que li na vida, lá pelos onze, doze anos – e é um autor que nunca parei de ler. Suas crônicas, contos, cartuns, tiras, poemas (e os raros romances) me explicaram a vida e o Brasil. Tenho a lembrança de uma tira de jornal, por exemplo, das “Cobras”: há uma cobra pai e uma cobra criança contemplando, lado a lado, um céu noturno super estrelado (em preto e branco). No segundo e terceiro quadros, a cobra pai diz: “Um dia, meu filho, toda essa perplexidade será sua.” Jamais me esqueci disso. Pode ter sido o meu primeiro contato com a filosofia de verdade. Não há respostas: só há perplexidade compartilhada.

            A segunda: nesta semana, estourou uma polêmica na bolha da literatura e da crítica literária. A professora Aurora Bernardini, em entrevista à Folha de São Paulo, declarou que autores/as como Itamar Vieira Júnior (“Torto Arado”), Annie Ernaux e Elena Ferrante “são interessantes, mas não são literatura”, argumentando que são casos em que se esquece a forma e se privilegia apenas a história, o conteúdo – expressando uma visão hoje entendida por muita gente como arcaica e elitista. Bem. Vejamos o que Luis Fernando Verissimo diria: “A má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever.” Pronto: está tudo aí! Longa vida à “má literatura”! E note-se: isso é que um clássico, participando do debate mesmo depois de sua morte...

            Tirei o excerto acima do livro “Verissimas: frases, reflexões e sacadas sobre quase tudo”, organizado por Marcelo Dunlop e publicado em 2016. Dunlop selecionou pérolas do pensamento de Luis Fernando Verissimo e as estruturou em verbetes como verbetes de dicionário, de A a Z. Eu, de minha parte, separei um verbete de cada letra para esta coluna e para a do sábado que vem. Que tal?

Abismo: Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar.

Biblioteca: A biblioteca é o lugar onde começamos a nos conhecer.

Carpem diem: Viva todos os dias como se fosse o seu último. Um dia você acerta.

Descobrimento: Tu, piniquim. Eu, ropeu.

Escrever: Faz parte da arte de escrever a distribuição sagaz de espaços abertos, como os jardins nas casas. Assim respira o texto e respira o leitor. Toda arquitetura, de pedra ou palavra, deve ter aberturas bem-postas por onde circule o ar e cure-se a opressão.

Ficção: A ficção é sempre uma invenção, o que não significa que seja sempre uma invenção mentirosa. Há autores que inventam grandes verdades.

Guerras: Desconfie sempre dos que pregam banhos de sangue, eles sempre se referem ao sangue dos outros.

História: A História é um relato da imperfeição humana. A História é o nosso dossiê criminal, nossa culpa documentada.

História do Brasil: Não temos uma História, temos uma série de começos em falso.

Infinito: O xadrez é a última tentativa humana de conviver inteligentemente com o infinito.

Jornal: Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data.

Kafka: O termo “kafkiano” já perdeu qualquer contato com a literatura que lhe deu origem e é usado por gente que nem sabe quem foi Kafka — o que não deixa de ser meio kafkiano.

Livrarias: As megalivrarias acabaram com o prazer de escarafunchar, já que — a própria palavra está dizendo — escarafunchar pressupõe pilhas poeirentas, estantes inacessíveis e todas as dificuldades que tornam a descoberta do livro procurado uma vitória pessoal, emocionante como uma conquista arqueológica.

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