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Expressão Plural

Tempo perdido: a tempestade que chega

teste
Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Eu estou ministrando uma disciplina eletiva chamada "Brasil: da redemocratização à atualidade (1985-2025)", e estava escolhendo músicas para fazer uma playlist de músicas dos Anos 80 quando... tive um "treco estético". Explico.

 É que eu entreouvi, passando e repassando pedaços de canções, o Renato Russo cantando que não temos mais o tempo que passou. Me ocorreu que não apenas temos, sim, o tempo todo, o tempo que passou - transmutado em experiência viva, em tempo presente condensado, em expectativa e em força de prospecção “oracular” do futuro -, como ele, o tempo, é o que somos, ou, por outra, nós somos o tempo que passou. Não um objeto que tenhamos tido e deixamos de ter, como um brinquedo velho - mas nossa própria substância, aqui, agora.

 Dizendo de outro modo, tudo o que nós temos, só o que nós temos, a cada momento dado, é precisamente o tempo que passou. E, se bobear, nós, como espécie – nós, Sapiens -, somos todo o tempo que passou. Todo. O tempo, aqui, não como um elemento puramente externo, um eco do mundo das ideias que, neste vale de lágrimas, embranquece cabelos, apodrece maçãs e amarelece páginas de livros, como em Platão; e nem só, também, “um número do movimento”, como em Aristóteles. É como se fôssemos, nós próprios, o eixo do tempo, o ponto nodal entre passado, presente e futuro. A realização do tempo. Marx escreveu que os eventos históricos não “se dão” no tempo, eles “são” o tempo. É um pouco isso, porque no coração dos eventos históricos, afinal, quem está? Quem? Nós mesmos, as galinhas depenadas de Diógenes de Sínope.

 Portanto, celebre, sim, seus aniversários. Reconheça-se no tempo que passou, compreenda-se como sendo o tempo que passou. Enxergue o ponto em que tu estás – que não é um ponto qualquer – de tua caminhada, e, essencialmente, não minta sobre sua idade. Reivindique cada ano, cada estação (“mudaram as estações/ nada mudou”), cada revoada e salto de galho, cada tropeço e cada soco no ar do Pelé, cada ruga: como lembra Renato Russo, uns versos depois, na mesma canção, não foi “tempo perdido”.

 Bem: minha atenção se voltou inteira para a canção – canção que eu, como todo mundo, já tinha ouvido milhares de vezes. É que, em razão de várias variáveis, uma nova escuta estava se oferecendo para mim naquele momento (e, como notou Heráclito, ninguém ouve duas vezes a mesma canção). Reparem: “não temos tempo a perder”. Isso é legal, pois dá um alerta, um sinal de urgência, funciona como um lembrete para que não percamos tempo com bobagens. Está bem. Mas, em um sentido profundo, não há “bobagens”, há? Tudo o que há já é o jogo sendo jogado – jogue! O próprio Renato havia dito, antes, que não há tempo perdido. Somerset Maugham: não há “becos sem saída”, tu tinhas de entrar ali, passar por ali.

 É preciso, ainda, termos cuidado com o peso do passado – não é, Freud? Não é, Benjamin? Todos os dias, antes de dormir, lembre e esqueça como foi o dia. E saiba que, em meio a isso que é/não é o tempo, “temos nosso próprio tempo”. Um tempo dentro do tempo, que é nosso. Tempo de Mediterrâneo, tempo de borboleta.

 Admito que o que houve comigo, ouvindo aquela música, possa ter sido só um efeito do frio extremo deste inverno. Uma tontura, uma vertigem. Um desejo de dormir. Tudo bem. Que seja. A tempestade que chega sempre será da cor dos teus olhos castanhos...

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