É quase um ritual de quem envelhece: repetir que a juventude “não é mais a mesma”, que “antigamente era melhor” e que “no nosso tempo havia mais respeito”. Esse tipo de crítica não é nova, pois ela se repete em ciclos, geração após geração. É como se cada geração fosse condenada a olhar para a seguinte com uma certa desconfiança. Mas será que essa crítica tem fundamento? Ou estamos apenas presos a uma comparação torta entre quem somos hoje e quem eles ainda estão se tornando?
O erro mais comum está justamente aí: comparamos nossa versão adulta, moldada pela experiência e pelo tempo, com uma juventude que ainda está em formação. É uma comparação desigual, porque o olhar do adulto já é filtrado por anos de aprendizados, erros e acertos, enquanto o jovem está em constante construção, buscando seu lugar e sua identidade. Isso é injusto, e até mesmo desonesto. Esquecemos que um dia também fomos inseguros, impulsivos e exagerados. Que nossos pais também nos olhavam com preocupação, achando que estávamos “perdidos”. A diferença é que agora somos nós no papel dos que julgam, e talvez estejamos apenas repetindo os mesmos discursos envelhecidos.
Além disso, costumamos romantizar nossas dificuldades passadas e desvalorizar as de hoje. Se no passado enfrentávamos falta de recursos, trabalho precoce ou rigidez social, os jovens de agora lidam com um mundo mais complexo: excesso de informação, redes sociais que cobram perfeição, ansiedade, pressão por produtividade, medo de não se encaixar. As dores mudaram de forma, mas continuam reais. É preciso reconhecer que os desafios contemporâneos são tão ou mais difíceis, embora diferentes em sua natureza, e que a velocidade das transformações tecnológicas e culturais adiciona um peso extra para quem está crescendo hoje. Negar isso é negar a realidade e cair na armadilha da nostalgia seletiva, onde lembramos só do que convém e esquecemos do que doía.
Claro que a geração atual comete seus exageros, tem seus comportamentos vazios e suas alienações. Mas isso ocorreu em todas as gerações. Não dá para usar as particularidades de alguns para definir o todo. Muito menos transformar todas as mudanças em decadência. Nem tudo que é diferente está errado. Às vezes, é só novo, e o novo assusta quem já se acomodou no velho.
Talvez o mais justo seja parar de comparar gerações como se uma fosse superior à outra. Em vez disso, deveríamos comparar os desafios que cada uma enfrentou e reconhecer o valor de todas. Em vez de repetir que “os jovens estão perdidos”, talvez devêssemos admitir que eles estão apenas tentando se encontrar num mundo que já não é mais o nosso, com outros códigos e outros caminhos. E aceitar que o tempo passa para todos. Afinal, um dia também fomos vistos como o problema, e nós sobrevivemos. Eles também vão sobreviver.