Raul Seixas teria completado oitenta anos de vida em 28 de junho de 2025 (morreu aos 44 anos de idade em 21 de agosto de 1989, e muita gente se lembra onde estava e o que fazia na tarde daquela segunda-feira, quando a notícia se espalhou pelas rádios do país). Sim, ele mesmo: Raul Seixas, Raulzito, a Metamorfose Ambulante, o demiurgo da Sociedade Alternativa, o bardo que, na verdade, havia nascido há dez mil anos, o astrólogo que conhecia a história do começo ao fim, o Moleque Maravilhoso, o Maluco Beleza, o Carpinteiro do Universo. Luiz Gonzaga, Elvis Presley e Bob Dylan em uma figura singularíssima.
Raul Seixas, um intérprete do Brasil, o artista que, sem ser uma unanimidade na crítica especializada (e que desprezava a “linha evolutiva da música popular brasileira”), vive, porém, no coração do povo brasileiro, nas regiões (divinais) do Brasil profundo, um lugar para poucos: Adoniran Barbosa, Tonico e Tinoco, Roberto Carlos... you name it. “Toca Rauuul”, queira-se ou não, é uma súplica daquelas profundezas, um coro cósmico, um mantra de evocação (e invocação) desse brasileiro nato – “brasileiro nato/ se eu não morro, eu mato/ essa desnutrição”!
O que ele estaria fazendo nesses últimos quarenta anos? Dizendo o oposto do que disse antes? É possível. Podemos conjecturar, mas não sabemos. Eu, de minha parte, recolhi um excerto de letra de canção de cada disco de Raul, para que possamos flagrar lampejos de sua carpintaria poética. Quase tudo lado B. Que tal?
“Baby, o que houve na França/ Vai mudar nossa dança/ É sempre a mesma batalha/ Por um cigarro de palha/ Navio de cruzar deserto.” (Cachorro Urubu, 1973)
“Tudo o que tinha que ser chorado já foi chorado/ Você já cumpriu os doze trabalhos.” (Loteria da Babilônia, 1974)
“Na faculdade de Agronomia/ Numa aula de Energia/ Bem em frente ao professor/ Eu tive um chilique desgraçado/ Vi você surgir ao meu lado/ Do caderno do colega Nestor.” (Tu és o MDC da minha vida, 1975)
“Não adianta, perguntas não valem nada/ É sempre a mesma jogada/ Um emprego e uma namorada.” (Quando você crescer, 1976)
“Que luz é essa que vem vindo lá do céu?/ Quem é que sabe o que vem trazendo esse clarão?/ Talvez alguma coisa que não é sim nem não/ Vem mostrar que o ponto de vista/ É que é o ponto da questão.” (Que luz é essa?, 1977)
“Cada cabeça é do mundo, Raimundo/ Antes de escrever o livro que o guru lhe deu/ Você tem que escrever o seu.” (Todo mundo explica, 1978)
“Eu tive que perder minha família/ Não respeitei o sacrifício/ Que custa para construir/ A fortaleza que se chama família.” (Diamante de mendigo, 1979)
“Tem que acontecer alguma coisa, neném/ Parado é que eu não posso ficar/ Quero tocar fogo onde bombeiro não vem/ Vou rasgar dinheiro e tocar fogo nele só pra variar.” (Só pra variar, 1980).
“Que el mundo fué y será una porquería/ Yo lo sé/ Enel 510 y en el 2000 tambíen.” (Eu sou eu, Nicuri é o diabo, 1983)
“Esse gênio esboçado/ Essa criança louca, esse filho da dor/ Que foi capaz de erguer do lodo uma voz rouca/ E um canto de amor.” (Quero ser o homem que sou, 1984)
“Gente é tão louca/ E no entanto tem sempre razão/ E o problema é tão fácil de perceber/ É que gente/ Gente nasceu pra querer.” (Gente, 1988)
“O meu egoísmo/ É tão egoísta/ Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.” (Carpinteiro do Universo, 1989)
Raul Seixas: presente!