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Expressão Plural

Quem é normal?

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JF Martignoni
Por JF Martignoni
Foto Arquivo pessoal

Nostalgia, hoje, representa uma saudade de um tempo bom que passou, mas, durante a Guerra Civil norte-americana, os soldados podiam ser diagnosticados com nostalgia por quererem voltar para casa — uma doença mental para a época. No século XIX, mulheres podiam ser diagnosticadas com Insanidade da Lactação, ou diversos outros transtornos associados ao corpo, pois estas eram vistas mais como animais do que racionais; logo, cirurgias em seus corpos tratariam seu comportamento. Os escravos que fugissem do seu “senhor” sofriam de drapetomania, segundo os médicos brancos — em outros termos, desafiar a escravidão era um sinal de insanidade, pois estariam desafiando sua “natureza”.

Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados eram diagnosticados com estresse pós-traumático (shell shockou trauma de guerra, na época), e as enfermeiras, com histeria, tendo os mesmos exatos sintomas. Pois histeria é algo feminino: eles eram heróis; elas, fracas que não controlavam as emoções.

Isso tudo pode parecer absurdo para você agora. Entretanto, atualmente, os diagnosticados com transtorno de personalidade borderline são, em mais de 75% dos casos, mulheres — porque estas não se enquadram no padrão masculino do autismo. Em outras palavras: sintomas são reais, mas diagnósticos são construções sociais. Estes muitas vezes servem para nortear o paciente sobre seus sintomas, mas também podem influenciá-lo a sempre encarar tudo que sente com base em seu diagnóstico — inclusive apresentando novos sintomas por essa consciência, e seus “novos” sintomas mudando caso mude o diagnóstico. Por exemplo, um paciente diagnosticado com depressão começa a não cumprir horários e julga que é por falta de energia. Mas, se seu diagnóstico mudar para TDAH, ele raciocinará que é pela falta de noção de tempo.

Aliás, o transtorno da década — TDAH —, curiosamente, foi descoberto por estudiosos financiados pela Ciba (atual Novartis), empresa farmacêutica que, na época, havia recentemente criado a ritalina. A psiquiatria, no geral, tende a forçar a ideia de que doenças psicológicas são mal funcionamentos do cérebro: problemas individuais, não ligados à sociedade e à cultura que cercam o indivíduo. Tudo está normal — VOCÊ é quem está com problemas.

Os hospícios foram inicialmente criados para abrigar todos os não produtivos, os que atrapalhavam — incluindo os desempregados, os sem-teto, os com deficiências físicas, os “estranhos” ... A única coisa que os ligava era a falta de contribuição à produção econômica. Quando, no século XVIII, esses lugares foram designados exclusivamente para os clinicamente transtornados, a régua escolhida para a internação era sua contribuição para a economia. Até hoje, os transtornos são divididos em alta e baixa performance. O autista que trabalha doze horas por dia em uma grande empresa de tecnologia é de alta performance — mesmo tendo crises sensoriais em casa e sendo incapaz de cozinhar a própria comida. Pois eles são os bons, eles mantêm seus transtornos privados. Sua obsessão com o trabalho não é hiperfoco, pois ser focado no trabalho é normal — mais que normal, é uma qualidade. Já o autista com fixação em quadrinhos e com problemas em socializar é um problema — mesmo sendo muito mais feliz que o viciado em trabalho.

Não estamos trabalhando demais e recebendo menos do que o necessário: estamos com burnout. O futuro não é incerto: estamos ansiosos. O neurotípico nada mais é que um ideal para o mercado: aquele que aceita tudo calado e não reage a nada é o normal.

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