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Expressão Plural

O dono da bola

teste
Everton Ruchel
Por Everton Ruchel
Foto Arquivo pessoal

Era uma vez um menino, muito mimado, que ganhou uma bola. Mas não era apenas mais uma bola qualquer, daquelas feitas de meia ou de borracha, meio murchas. Era uma bola de couro, a mais cara da rua, cheia de detalhes, dada a ele por alguém que dizia que ele era especial. E, por ter essa bola, ele achava que podia escolher tudo: os times, as regras, a duração da partida e até quem podia assistir do lado de fora.

No início, os outros meninos aceitaram. Afinal, sem bola, não tem jogo. Mas, com o tempo, eles foram percebendo que o dono da bola não queria só jogar. Ele queria mandar. Dizia que estava garantindo a ordem, que sem ele tudo viraria bagunça. Mas, na prática, o que ele fazia era impedir que os outros participassem de verdade. Quando alguém sugeria uma regra nova, ele zombava. Se outro menino tentava propor um jeito diferente de brincar, ele dizia que aquilo era contra as “regras”. Só que essas regras só existiam na cabeça dele.

E tinha mais: se alguém ousasse questionar sua autoridade ou, tentasse conseguir sua própria bola, mesmo que modesta ou improvisada, ele surtava. Chamava o outro de trapaceiro, dizia que aquele tipo de bola não servia para o jogo. Às vezes ele até chutava a bola dos outros para longe, furava, escondia. Não queria concorrência. Só ele podia ter a bola certa. Só ele sabia como o jogo devia ser.

Com o tempo, o campinho deixou de ser um lugar de alegria. Os meninos jogavam tensos, com medo de contrariar o dono da bola. Alguns foram embora, cansados de tentar. Outros ficaram, por costume ou por não verem alternativa. E o dono da bola, cheio de si, seguia ditando as partidas, mesmo quando não havia mais ninguém para jogar.

De vez em quando, alguém tentava conversar. Dizia: “Olha, talvez existam outras maneiras de brincar.” Mas o menino balançava a cabeça, firme: “Isso é perigoso. Vai estragar o jogo. O certo é como eu faço.”

O tempo passou. Novos meninos apareceram. Novas bolas também. Algumas diferentes, outras até mais bonitas. Mas até hoje o dono da bola segue com a mesma postura: ou jogam do jeito dele, ou não jogam. E se o jogo dos outros começa a atrair olhares, ele logo diz que não é confiável, que traz risco ao campinho. No fundo, ele tem medo. Medo de perder o controle. Medo de descobrir que seu jeito não é o único. Medo de que, talvez, o jogo possa ser mais divertido quando ninguém manda sozinho.

Porque o problema de se achar sempre com a razão é que, cedo ou tarde, verá o campo esvaziar, a bola murchar e o som das risadas sumir. E o dono da bola ficará sozinho, tentando iniciar um jogo em que só ele chuta, só ele marca os gols e só ele aplaude.

No fim das contas, ele não percebe que, para o jogo existir de verdade, é preciso mais do que uma bola. É preciso gente disposta a jogar junta, mesmo que nem sempre joguem igual.

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