Nessa sexta-feira, 20 de junho, tivemos o solstício de inverno. Vejamos o que nos sopra a seu respeito, feito um vento gélido de junho que instintivamente nos leva a empalmar melhor a cuia do chimarrão, sentindo-lhe o calor, o escritor e filósofo sino-americano Deng Ming-Dao:
“Inverno
Um homem sem teto morre na sarjeta. Uma árvore se parte no frio: um som chocante. No solstício de inverno, o dia é o mais curto de todos e a noite, a mais longa. Pode ser uma ocasião de muito frio. O surto sopra com ferocidade frígida, cortando tudo diante de si. A neve e o gelo tornam-se mortais. Os que não têm casa, morrem devido à exposição. Mesmo as árvores mais fortes podem se partir com a queda de temperatura.
O som de uma árvore que se parte parece um tapa repentino. Os horrores, as tragédias que traz esse nadir! O inverno tortura o mundo com chicotes gélidos, e os fracos são estimados pelos seus calcanhares glaciais. Às vezes, não nos atrevemos sequer a lamentar os que morrem na investida do inverno, com medo de que as lágrimas se congelem no nosso rosto. Mas vemos e ouvimos. Amontoados mais perto do fogo, juramos sobreviver.
Não importa quão sejamos afetados pelo infortúnio, lembremo-nos de que esse é o ponto mais baixo no giro da roda. As coisas não podem descer indefinidamente. Há limites para tudo – mesmo para o frio, a escuridão, o vento e a morte.
Chamam esse o primeiro dia do inverno, mas, na verdade, é o início da morte do inverno. Hoje, a noite ultrapassa o dia e, não obstante, o dia gradualmente começa a se reafirmar. A partir desse dia, podemos ansiar por luz e calor. Toda a vida é feita de ciclos. Toda a vida é equilíbrio.”
Como o samba de Noel Rosa, esse é um texto em feitio de oração, não lhes parece? Um rezo enregelado, uma “estética do frio”? E por falar nele – em Vitor, não em Noel -, um outro sopro faz ressoar uma melodia sua: “Só, caminho pelas ruas/ Como quem repete um mantra/ O vento encharca os olhos/ O frio me traz alegria”. Se nesses versos de “Satolep” o som dos passos é a repetição de um mantra, os versos iniciais de “Stay on These Roads”, do A-ha, sugerem que o vento possui uma voz – e fala: “Cold has a voice/ And it talks to me”.
E se o frio fala, o que ele estará dizendo? Alison Davies, a bruxa, aponta que, enquanto tudo é silêncio em uma Terra que se restaura, “os termos do inverno” condizem com um ‘mood’ reflexivo”, e pedem que força e autocuidado sejam tidos como algo prioritário. Esse ponto de vista faz lembrar do lema da Casa Stark em “Game of Thrones” – e uma das sentenças mais célebres da série: "The winter is coming".
A frase, é certo, tem a função de prenunciar, na narrativa, a tragédia que se abate sobre aquele universo fictício (e ao mesmo tempo tão “mundo medieval”), quer dizer: algo de ruim irá acontecer. Porém, há, nela, um sentido semelhante ao que traz Davies: a ideia de uma prudência, de um recolhimento, de um reunir recursos – um pouco como na fábula da formiga e da cigarra.
Acolhamos Cailleach, a deusa da antiga Escócia, “aquela que traz o inverno e o granizo”, sem receios demasiados e com solidariedade para com os outros/as. O próprio frio é um “outro”. E deixemos a cigarra livre para entoar o seu próprio mantra.