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Expressão Plural

Grafite

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JF Martignoni
Por JF Martignoni
Foto Arquivo pessoal

A intervenção artística em espaços públicos começou nos primórdios da humanidade com as pinturas rupestres, hieróglifos, entre outros. Inclusive, a palavra "grafite" vem do italiano "graffito", que significa "escrita em carvão" ou "escrita feita na parede", uma prática comum de protesto na Roma Antiga. No entanto, o grafite que conhecemos hoje, com tinta spray em muros e superfícies semelhantes, teve início após o Movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, estando intimamente ligado ao Movimento Hip Hop. Seus pioneiros foram jovens negros e latinos, moradores do Bronx e da Filadélfia, nos anos 60. Trata-se de uma retomada do espaço público, em que os grafiteiros se negam a ser meros consumidores passivos do ambiente urbano e decidem agir sobre a identidade visual do espaço que ocupam.

No Brasil, o grafite chegou na década de 70, trazido pelo artista etíope Alex Vallauri (que abordava a arte com estêncil). Como toda forma de arte marginal, foi abertamente reprimido pela Ditadura Militar, com violência. Nada diferente do que ocorreu no mundo inteiro; o picho, por exemplo, foi uma das formas através das quais aqueles que estavam fora das classes dominantes puderam expressar suas vozes e deixar sua marca na sociedade à qual pertenciam.

Enquanto no modernismo a arte estava sendo reduzida às suas características estéticas, afastando-se de metáforas e da vida cotidiana, a Pop Art de Andy Warhol mostrou, através da reprodução e exposição de objetos do cotidiano em galerias, que a qualidade artística não reside apenas na estética e na formalidade do design. O cotidiano pode ser arte e ser exibido nos museus. Já o grafite inverteu isso: a arte pode estar presente no cotidiano. Talvez seja a maior contracultura, pois, enquanto a arte era vista como algo a ser preservado, com a busca pelo autor e sua história, as pichações são anônimas, expostas aos elementos, e sua deterioração faz parte da arte. Enquanto as galerias eram para as elites, a arte de rua é para o povo.

A arte tradicional é exposta em locais tradicionais, onde vamos preparados para admirar, mas o grafite nos surpreende no nosso dia a dia, nos instiga a prestar atenção ao nosso redor e interagir com os centros urbanos, contrastando totalmente com a propriedade privada.

Com o tempo, o capitalismo percebeu o potencial disso, e as propagandas começaram a imitar a arte genuína, espalhando-se pela cidade em posters, outdoors e painéis. Mas agora, não se tratava de poluição visual; afinal, estavam vendendo produtos. Além disso, com o aumento do turismo cultural, onde jovens queriam ver as pichações para ter uma experiência autêntica da cidade, o mercado se abriu, à sua maneira, para a arte de rua. Houve uma separação entre o picho sujo, anárquico e vandalizado, e os painéis encomendados por governos e empresários, que buscavam atrair um público "descolado" para locais específicos. "Isso é arte, aquele outro não." Cansados da repressão e em busca de sustento, muitos artistas preferiram focar seus esforços nesses painéis encomendados, tendo que abrir mão da pura liberdade artística, pois suas mensagens não podiam ser agressivas contra a mão que os alimentava.

Quem sou eu para julgar artistas que vivem de sua arte? Sempre peguem seu dinheiro, meus queridos. Mas qual será o futuro da arte de rua no mundo pós-liberal? Será possível manter a autenticidade e a mensagem neste novo modelo? Com mais recursos, teremos ainda mais liberdade e veremos obras ainda mais geniais? Ou todo movimento artístico está fadado a manter sua estética no mainstream e abandonar sua ideologia? Só o tempo dirá.

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