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Expressão Plural

Adolescência

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo Pessoal

            E a minissérie “Adolescência”, caro leitor/a? Tu já a assististe? Como diria o Guri de Uruguaiana, “só se fala noutra coisa”. Que hype, e merecido! Eu quero dar um pitaco sobre ela, está bem? Não farei, porém – ao menos agora -, propriamente uma resenha: quero oferecer uma chave de leitura, algo de minha primeira impressão sobre a série.

            Como se sabe, trata-se de uma minissérie britânica lançada ainda neste mês de março, criada por Jack Thorne e Stephen Graham (que também desempenha o papel de pai do menino) e dirigida por Philip Barantini. É contada a história de um estudante de treze anos de idade, que é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola – acusação acertada, como se verá ainda no início da narrativa (não é um “spoiler” – todo mundo já sabe). Aclamada pela crítica especializada e pelo público, a série transcendeu a esfera em que normalmente circula esse tipo de produto cultural e ocupou, tem ocupado, o debate público nas últimas semanas, uma vez que é construída em torno de temas importantes e prementes como bullying, misoginia, internet, redes sociais, família, entendimento e desentendimento entre pais e filhos, e um certo desespero quanto à educação de nossas crianças – desespero, desconfio, agravado pelo fato de que nos encontramos, tanto quanto ou até mais que nossas crianças e adolescentes, presos nas malhas disso tudo.

            Mas passemos à chave de leitura que quero oferecer: no fim do segundo episódio, bem no fim, repare o caro leitor/a, temos, como trilha sonora incidental, um coro – como que um coral de colégio – interpretando uma canção; são só uns poucos segundos, e não há nenhuma referência outra à canção. Trata-se, e essa é a chave de leitura, de “Fragile”, uma canção de cunho político de Sting (ele próprio um professor de literatura antes de formar a banda “The Police”, nos anos 1970) chamada “Fragile” – que é de 1988 e faz parte do álbum “... Nothing Like the Sun”. Sua letra, em tradução minha, é assim:

            “Se o sague irá jorrar quando a carne e o aço tornarem-se um só/ Secando sob as cores do sol que se põe/ A água da chuva, amanhã, lavará as manchas do chão/ Mas alguma coisa vai restar em nossas mentes, estará sempre ali/ Talvez significando o ato final de uma longa discussão/ Que da violência nada vem, e nada poderia mesmo vir/ Para quem nasceu sob uma estrela de fúria/ Não esqueçamos o quão frágeis somos// E a chuva permanecerá caindo/ Como lágrimas de uma estrela/ Como lágrimas de uma estrela/ Quão frágeis somos/ Quão frágeis somos (How fragile we are)...” Essa última parte é repetida até o fim da canção, e, se tu estiveres “maratonando” os quatro episódios, ficará ecoando, como um grilo-falante acompanhando a trama, às vezes como uma constatação resignada – quão frágeis somos, quão frágeis somos -, às vezes como uma pergunta exasperada: quão frágeis somos?

            Em certo momento, fantasiei que quem cantava a canção era a própria menina assassinada, ausente (uma ausência super presente!) desde o início. Depois, talvez mais racionalmente, pensei: essa música foi escolhida para nos lembrar de que, para muito além da culpa pelo crime em sentido estrito (que existiu), há uma culpa distribuída pela comunidade inteira, aquela comunidade em particular e a comunidade humana, distribuída pela cultura inteira. Khalil Gibran: “Nenhum crime é cometido em uma sociedade sem o secreto consentimento do todo.”

            Em entrevista, Stephen Graham mencionou o provérbio africano que diz que é preciso uma vila inteira para criar uma criança. Somos, existimos, em rede, redes sociais em sentido profundo, e nos encontramos enredados, emaranhados, enozados.

            Quão frágeis?

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