O termo "woke" (desperto) surgiu na década de 1930 nos Estados Unidos, referindo-se à conscientização sobre os problemas sociais e políticos que afetavam a população negra norte-americana. A partir de 2010, o termo se expandiu, abrangendo diversas outras desigualdades sociais, como o sexismo e a negação dos direitos LGBTQIA+. Contudo, o "woke" que quero discutir é o de pós-2019, quando os republicanos começaram a usá-lo de forma pejorativa para criticar os democratas, que, do seu ponto de vista, estavam adotando pautas politicamente corretas demais. A partir daí, surgiu um combate à diversidade e às obras consideradas "woke", como a limitação do estudo sobre racismo e a proibição de livros de autores negros ou LGBTQIA+ nas escolas da Flórida, nos EUA.
É curioso como a história se repete, pois as mudanças de um passado não tão distante voltam a nos afetar no confuso presente. Não faz tanto tempo que se questionava a ausência de apresentadoras negras na TV Globo, a falta de representatividade dos LGBTQIA+ e a escassez de histórias que os retratassem sem estereótipos. Agora, vemos pessoas brancas e heterossexuais reclamando que esses grupos estão aparecendo "demais". Hoje, essa maioria não se sente representada pelas novas obras e se imagina forçada a uma convicção que não lhes agrada – exatamente o que todos os outros grupos reclamavam no passado recente.
Em 2003, Morgan Freeman, um homem negro, interpretou Deus no filme O Todo Poderoso. O fato não gerou grande polêmica, e sua voz se tornou a voz de Deus na cultura pop mundial por décadas. Da mesma forma, a deusa grega Calypso foi interpretada pela também negra Naomie Harris em toda a franquia Piratas do Caribe, e isso nunca foi questionado. São obras que amamos e atuações que marcaram época. Hoje, se o mesmo fosse feito, seriam lançamentos boicotados por escolhas que nada interferem na história retratada de fato.
O próximo lançamento da Naughty Dog, chamado Intergalactic, está sendo duramente criticado pela simples razão de que a protagonista é uma mulher de cabelo raspado e com traços militares (vistos como masculinos). Imagine o que seria de Alien, o 8º Passageiro (1979) se Ellen Ripley fosse uma modelo hipersexualizada? Provavelmente, o filme teria sido um dos menos convincentes da década. Além disso, houve críticas ao remake live-action de A Pequena Sereia, simplesmente por não ser interpretado por uma mulher branca. Onde vivem essas sereias brancas que são referência para tantos? Talvez eu tenha sido criado em um mundo diferente, mas não imagino desistir de um filme por causa da cor ou do sexo do protagonista.
A arte é uma expressão, e nem Jesus agradou a todos. Lembro de quando fui questionado por minha professora do pré sobre minha árvore ser roxa com folhas azuis, e respondi: "A árvore é minha, vou pintá-la como eu quiser."