Roger Garaudy escreveu: “Não sei se a escola foi um narcótico, um anestésico ou um envelhecimento precoce.” Eu também não sei – ainda que desconfie de algumas coisas e acrescente umas quantas mais -, mas queria neste sábado oferecer ao caro leitor/a algo que fizesse menção a este momento de volta às aulas. Mexendo e fazendo uma leitura em diagonal de “Só Poema Bom” (2000), livro em que o escritor e tradutor Paulo Hecker Filho compila seus poemas favoritos de uma vida de leitura, encontrei este poema de Jacques Prévert (1900-1977): uma genuína lição de pedagogia, uma inesquecível aula de matemática.
“Página de escrita
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezesseis...
Repitam! diz o mestre
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezesseis.
Mas eis o pássaro lira
que passa no céu
o menino o vê
o menino o ouve
o menino o chama
Salva-me
brinca comigo
pássaro!
Então o pássaro desce
e brinca com o menino
Dois e dois quatro...
Repitam! diz o mestre
e o menino brinca
o pássaro brinca com ele...
Quatro e quatro oito
oito e oito dezesseis
e dezesseis e dezesseis quanto é?
Não é nada dezesseis e dezesseis
e sobretudo não trinta e dois
de qualquer modo
e eles se vão
E o menino esconde o pássaro
na sua classe
e todos os meninos
ouvem sua canção
e todos os meninos
ouvem a música
e oito e oito por sua vez se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez se retiram
e um e um não fazem nem um nem dois
um a um se vão igualmente.
e o pássaro lira brinca
e o menino canta
e o professor grita:
Quanto terminarão com essa palhaçada!
Mas todos os outros meninos
escutam a música
e os muros da aula
se desmoronam tranquilamente.
E as vidraças voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as classes voltam a ser árvores
o giz volta a ser rocha
a pena volta a ser pássaro."