Crises climáticas, crises econômicas, conflitos sociais, pandemias, possível Terceira Guerra Mundial... Vivemos com tanta incerteza no presente e desesperança no futuro que preferimos olhar para um passado que nunca existiu do que imaginar um futuro.
Não queremos mais carros voadores e explorar galáxias, queremos segurança, casa própria, férias de final de ano, uma grande família ao redor da mesa, viagens de carro até o cinema ou drive thru enquanto toca algum som dos anos 70 nos autofalantes. Tudo sustentado com só um emprego, ir todo domingo no estádio ver o futebol, chegar de um longo dia de trabalho com um jantar nos esperando... Ah o tempo em que tudo era simples.
Nostalgia virou um produto que pode ser consumido, pouquíssimo ligado a realidade, os filmes estão tendo remakes, prequells e sequels totalmente plastificados e livres de quaisquer críticas ou significância que um dia tiveram. Por que eu iria ver o remake de Rei Leão com todas as cenas replicadas em live-action? Para querer chegar e assistir em casa o original? Os maiores hits musicais estão sempre trazendo elementos de um gênero musical do passado, sempre desprovido de seu real sentido, apenas uma miragem. Um cadáver transformado em marionete que ainda exala o cheio de carniça.
Temos como exemplo atual a “Descer para BC” segunda vez que interpolam a música Rappers Delight de 1979, em português e conquistam as massas. A primeira obviamente Ragatanga. Não consumimos essa mídia seja música ou filme por serem bons, mas por estarem associados a bons tempos que vivemos, ou idealizamos quando crianças. Lucram com nossas memórias e apegos afetivos.
A política não escapa, vemos Trump com seu vago discurso de make américa great again, “traga a América de volta ao seu auge” e qual auge é esse? Qual foi o tempo sem problemas, desemprego, crises... Nunca. Por isso é vago, é para você lembrar algum tempo em que foi feliz e projeta-lo em sua proposta. Nós sentimos nostalgia de tempos que não vivemos, mas imaginamos como devia ser por filmes, fotos, clipes musicais. Tudo é muito melhor quando o encaramos de uma distância segura.
Estamos todos imersos nessa nostalgia melancólica em algum grau, eu mesmo comemorei o novo álbum do Kendrick Lamar e os singles anteriores por tentar trazer de volta a verdadeira época do rap. Época que conheci apenas pela TV e rádio. Vejo jovens alternativos da internet aderindo veemente a uma subcultura, mas apenas na maneira estética. Voltando a usar toca discos e toca fitas, máquinas fotográficas digitais dos anos 2000, uma máscara temporal para usarmos em nosso dia a dia para não ser tão hoje... Tudo o que não mais existe, volta em simulacro ou simulação se assim preferem.
Pegaram a referência a Raul Seixas no título? Seus nostálgicos!