Despedidas não são fáceis. Cada uma tem seu peso, sua medida. E elas dizem muito mais sobre as nossas expectativas em relação àquilo que estamos perdendo, seja uma pessoa, um lugar ou até uma fase da vida. No entanto, para um pai e uma mãe, não há despedida que se compare àquela que envolve a perda de um filho. Despedir-se de um filho para sempre é uma dor profunda, cruel demais para ser descrita em palavras. Deveria ser proibido e, não só porque é contra a ordem natural da vida, mas há uma infinidade de motivos que explicam por que esta é a despedida mais impiedosa que alguém pode vivenciar, mas o mais evidente é a sensação de que, com a perda de um filho, a vida perde parte de seu sentido.
Eu já vivi outras despedidas, avós, amigos, tios e, até mesmo de animais de estimação e cada uma delas teve sua própria marca. Cada uma dessas perdas trouxe consigo uma dor única, um aprendizado próprio e um peso que, de algum modo, me transformaram. Elas contribuíram para a pessoa que sou hoje, porque, de certa forma, são experiências que nos ensinam a lidar com a impermanência da vida e com a nossa própria fragilidade. No entanto, nenhuma dessas perdas foi sequer parecida com a experiência de perder um dos meus filhos.
A perda de um filho é uma dor inimaginável, é uma dor sem nome. Mesmo agora, passados três anos, ainda sinto a mesma dor, uma dor que não se dissipa, mas que lentamente se transforma em saudade e em amor. Quando me vi diante dessa realidade, o impacto foi devastador. Por que comigo? Por que o meu filho? Lembro como se fosse ontem o momento em que descobri que o coração dele havia parado de bater. A sensação de vazio, incredulidade e desespero tomou conta de mim. Durante os dias que se seguiram: a longa espera, só não saberia dizer pelo que. Prolongar era sofrer a angústia de saber que ele já não estava mais ali; e apressar seria despedir de vez daquele serzinho tão amado. O único colo foi o da despedida, onde tentei gravar na minha retina cada detalhe daquele rostinho sereno, como um último presente da vida. E, finalmente, o dia de deixá-lo ir, num gesto de liberdade, lançando suas cinzas no mar, aos cuidados de Nossa Senhora dos Navegantes ou de Iemanjá, como preferir, exatamente dois dias após o aniversário da rainha das águas.
Foi uma entrega silenciosa, uma despedida sem palavras. Eu entrei no mar com você nas mãos, e a cada onda que quebrava na praia, eu sentia você se afastando, escorregando lentamente pelos meus dedos, indo em direção a um destino onde eu não podia acompanhá-lo. A saudade é constante, uma presença silenciosa. Ela vai me acompanhando, dia após dia. As lembranças surgem e se vão como uma maré, mas o “e se” insiste em invadir meus pensamentos, criando espaços vazios, perguntando o que poderia ter sido. Algumas datas específicas doem mais e mexem na ferida aberta. E, em cada passo que dou, a dor vai se tornando também uma forma de te honrar, de te carregar comigo, onde quer que eu vá. A perda de um filho é a despedida mais doida, nunca se supera, mas de alguma forma, se aprende a viver com ela.