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Expressão Plural

Comentário a respeito de Bel

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Por Everton Ruchel
Foto Arquivo Pessoal

Era uma manhã fria, daquelas em que o céu parece conversar com as pessoas. Eu caminhava apressado, perdido em pensamentos, quando, em uma esquina que nunca tinha notado antes, algo me chamou a atenção. Ele estava lá, encostado em um muro de tijolos, com um violão na mão e um olhar distante. Era Bel, aquele rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, com sua postura simples, quase invisível, mas ao mesmo tempo imponente, como uma presença que se faz sentir sem precisar fazer barulho.

O vento estava mais forte, bagunçando seus cabelos, mas ele não parecia se importar. Quando me aproximei, seus olhos brilharam com a mesma intensidade de sempre, e ele deu um sorriso tímido, como se já soubesse de tudo o que eu gostaria de perguntar, mas não sabia por onde começar.

"Nada como viver de repente", disse ele, como quem afirma uma verdade universal. E eu, sem saber o que responder, deixei o silêncio tomar conta. Não havia pressa no ar, como se o tempo, que tantas vezes nos aperreia, tivesse se retirado naquele instante, dando espaço àquela conversa sem palavras.

Aos poucos, comecei a entender. "O passado é uma roupa que não nos serve mais", ele me disse, em tom baixo, como se tentasse me contar que uma nova mudança em breve vai acontecer. E a verdade era que eu entendia perfeitamente, porque, ao olhar para ele, sentia que aquelas palavras falavam para todos nós, pessoas errantes.

"Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa", ele continuou, tocando o violão com um dedo, sem pressa para cada acorde. Eu me senti pequeno diante de tanta sabedoria que vinha sem aviso, sem preparo. "Quem sou eu para questionar a verdade de alguém que viveu tantas histórias?", pensei.

Ele riu baixo, como se lesse meus pensamentos, e continuou: "A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia", e me olhou com aqueles olhos profundos, como se tudo que eu precisasse fosse olhar para o mundo com o mesmo amor de alguém que pela dor descobriu o poder da alegria.

Por um momento, tudo ficou claro. Não se tratava de entender a vida em detalhes, mas de viver nela com a sinceridade de quem já percebeu que o tempo não espera. Que as dores, os amores, as vitórias e as derrotas são pedaços que se encaixam de alguma maneira, e que a grandeza está justamente na aceitação do que somos.

Ele então se levantou, colocou o violão de volta no ombro e, com a serenidade de quem já deu tudo o que podia dar, olhou para o horizonte. "A felicidade é uma arma quente", disse ele, como um último conselho.

E, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele se afastou e desapareceu. E, enquanto ele se afastava, eu sabia que algo tinha mudado. Não era sobre ele ou sobre mim, mas sobre o que o encontro representava: a música, a vida e a eterna busca por sentido no meio da caminhada.

Fiquei ali, sozinho, mas não solitário, com um único pensamento: “que a terra lhe seja leve”.

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