Dois peixes jovens estavam nadando juntos, quando passam por um peixe mais velho nadando em sua direção, e ele diz: “Bom dia, garotos. Como está a água?” Eles não respondem e seguem nadando até que um olha para o outro e pergunta: “O que diabos é água?”
O ponto dessa história é que a realidade mais óbvia é a mais difícil de ser notada e discutida. O que lidamos todos os dias. O estresse. O cansaço. As frustrações triviais do dia a dia. Muito da vida adulta nos é escondido atrás de sonhos, projetos, carreiras... Além de trabalho desafiador que nos propusemos a executar depois de anos de estudo. Temos que lidar com problemas do ambiente de trabalho que nada tem a ver com nossa função.
Temos uma casa para cuidar e é novamente aquele dia da semana e precisamos nos deslocar até o mercado depois de cumprir nossas oito horas diárias, o transito está terrível e demora muito mais do que deveria para chegarmos lá. O estacionamento está lotado e sua vaga te deixa com toda uma caminhada de ida e volta até suas compras. Seu carro está com problemas no alarme e precisa chavear as portas manualmente e se sente levemente humilhado. Chega finalmente dentro do shopping e pega seu carrinho, só após algumas compras nota que está com problema na roda esquerda que fica puxando o carrinho pro lado. Tem duas senhoras conversando na frente do produto que quer pegar e seus carrinhos trancam sua passagem. Pulando parte do processo você chega finalmente nos caixas, mas tem pouquíssimos abertos, mesmo sendo horário de pico e a fila é simplesmente ridícula e você deve estar furioso. Porém não pode descontar na moça do caixa que está sendo escravizada num trabalho com horários torturantes e que não lhe dá nenhum senso de propósito na vida. Você paga e pega um transito terrível e finalmente está em casa e foram apenas duas horas e meia para fazer algo que poderia ser feito em 20 minutos e agora percebeu que não comprou leite e não tem mais nenhum em casa.
Este nada mais é do que um exemplo das frustrações rotineiras. O ponto é que nesses momentos eu posso escolher. Eu posso ficar frustrado e estressado toda a vez que preciso fazer compras, que é a nossa programação padrão, pois o que pensamos é que isso é tudo sobre mim. As pessoas estão em meu caminho, estou cansado e com fome. Eu sou o centro do universo. Se quiser pensar assim tudo bem, a maioria de nós o faz. Mas também pode considerar todas as outras pessoas na fila e como elas também estão cansadas, com fome, e muitas levam uma vida muito pior do que a sua. As vezes a mãe com a criança gritando que passou na sua frente no último minuto pode ser a atendente do banco que vai resolver seu problema com um ato de bondade burocrática. Isso é pouco provável, mas o ponto é que independentemente da situação que se encontra na sua vida. É você quem escolhe como a verá. Como se sentirá a respeito. Não é fácil. É um exercício árduo mudar nossa mentalidade, eu falho muito nisso, mas saiba que há outras opções.
Um tropeço na rua pode ser motivo de uma risada sincera de você mesmo ou o motivo para surtar e estragar seu dia, só depende de você. Podemos nos manter na nossa configuração original e enfurecer sobre qualquer trivialidade, ou podemos praticar estar conscientes e decidir. Isso é sobre o valor da verdadeira educação que não tem quase nada a ver com conhecimento, mas tudo a ver com consciência. Consciência sobre o que é tão real e essencial que fica escondido em nossa vista, e precisamos nos lembrar diariamente: “Isso é água!”.
Texto baseado no discurso de David Foster Wallace para a colação de grau da turma de 2005 da Kenyon College.