No último episódio da segunda temporada da série “Landman” (Taylor Sheridan, 2024) há um diálogo assim: o protagonista (Billy Bob Thornton), um homem que é uma espécie de faz-tudo de uma companhia exploradora de petróleo no sul do estado do Texas, EUA, encontra-se com um chefão do narcotráfico mexicano que opera na mesma região (Andy García), para estabelecer um pacto de não agressão. Esta é a conclusão da conversa. O primeiro diz: “Não há futuro no produto que você vende. O meu produto também está ficando sem futuro.” O outro responde: “Talvez, mas ainda resta algum futuro.”
Essa resposta, caro leitor/a, ilustra um aspecto importante de uma certa postura das elites do mundo quanto à mudança climática e sua ameaça ao futuro da vida na Terra: para “fora”, o cultivo de uma narrativa negacionista; para “dentro”, a consciência plena da crise e o desejo de explorar o que ainda há a ser explorado neste “resto de futuro”.
Em setembro do ano passado, em uma coluna chamada “Desconexão, suspensão, colisão” e fazendo uso de um texto de Alyne Costa, eu trouxe três explicações diferentes para o negacionismo climático e ambiental: dúvidas expressadas sobre as causas e sobre a própria existência da crise. Tais explicações estão ligadas a três autores/as diferentes: para Bruno Latour, “a humanidade se encontra em uma situação de desconexão no que se refere à crise ecológica e civilizacional de nosso tempo. Por que nossas ações coletivas não refletem o conhecimento que possuímos? Segundo o autor, esta desconexão decorre em grande parte do fato de que parece impossível que nós, meros humanos que ocupamos o planeta durante uma fração de tempo ínfima em comparação com o tempo de existência da Terra, que nada podemos contra as forças supremas da natureza, tenhamos alguma responsabilidade sobre a situação de colapso ambiental que já começamos a vivenciar. Em outras palavras, somos incapazes de conceber que nossas ações enquanto humanos (...) possam ter alguma interferência na situação de crise ecológica em que nos encontramos. E, ainda pior, no caso de sermos afetados emocionalmente pelas evidências da crise e de sua origem antrópica, é preciso acrescentar, também como consequência dessa desconexão, a angústia por saber que ‘nós somos responsáveis’, porém sem nos sentirmos responsáveis individualmente (o que exatamente eu fiz de errado?) e sem tampouco sabermos apontar quem é esse ‘nós’ que seria o causador de tudo isso.
Isabelle Stengers também salienta essa desconexão, e acrescenta um desnorteamento que estaríamos vivendo, trazido pelo fato de estarmos “suspensos entre duas histórias”: uma, hegemônica e que, apoiada nos valores da competição, do crescimento econômico e do progresso infinito, desconhece ou deliberadamente ignora a crise ecológica; e outra que tem plena consciência da catástrofe ambiental que se aproxima, mas que ainda é dividida e/ou “não suficientemente clara” sobre o que fazer. Dipesh Chakrabarty, por sua vez, propõe que o Antropoceno constitui o momento em que três histórias que se desenvolviam em tempos diferentes colidem: a dos sistemas planetários, a biológica (da vida na Terra, incluindo a humana) e a do modo de vida industrial.
Temos, na proposição de Alyne Costa, portanto, desconexão, suspensão e colisão como elementos explicativos do negacionismo ambiental e climático. No entanto, temos, com a mesma autora (citando Alexandre Costa em uma formulação menos filosófica), uma espécie de negacionismo que possui consciência de si, que sabe de si, mas que não diz seu nome: “Os principais quadros das elites internacionais estão atentos, sim, à possibilidade de colapso civilizacional – preocupação que mobiliza toda a economia política da atualidade com vistas à garantia de seu quinhão caso o colapso se materialize, como também a estratégia escolhida é a de lucrar tanto com a devastação do planeta quanto com a oferta de soluções para contê-la, mesmo que tal estratégia se mostre inviável no fim das contas.” É diferente, não é?
O futuro, assim, é um substantivo comum que deve agora sempre ser mencionado, ou descrito, com o pronome indefinido variável “algum”: uma porção, um tanto. Mas quanto? E qual?