Após assistir Dragon Ball e Naruto na infância, na extinta TV Globinho, fiquei anos sem acompanhar animes. No entanto, a febre geral sobre essa arte, que tomou conta de meus conhecidos e diversos artistas que sigo, me fez retornar. Logo que comecei a assistir essas obras, majoritariamente shounen, agora como adulto, fez total sentido perceber por que, no mundo atual, buscamos essas histórias.
Não lembro exatamente por qual anime comecei: Demon Slayer, Hunter x Hunter, Inuyasha, Black Clover... O mais importante é que esses animes têm algo em comum: personagens desprezados, desacreditados, que superam adversidades para fazer a diferença no mundo. Eles constroem amizades sólidas e ganham o respeito dos outros no processo, quem sabe até encontrando o amor verdadeiro.
Em um mundo cada vez mais individualista e solitário, onde a economia deixa a maioria das pessoas sobrevivendo com o mínimo, sentindo-se incapazes de reagir ao que as oprime, vendo suas ações se tornarem insignificantes e seu trabalho indiferente e exaustivo, não é surpreendente que essas histórias sejam tão amadas. Nossos protagonistas são tudo o que almejamos ser. Quem de nós não gostaria que seu trabalho tivesse grande impacto e fosse reconhecido? Repor o estoque é necessário para a empresa e um trabalho digno, mas, se não fosse você ali, o que mudaria? Ansiamos por um propósito. Queremos nos sentir únicos e especiais, como Asta, Naruto, Tanjirō, Gon e tantos outros.
Outro ponto importante em minha visão sobre o tema são as amizades. Todos os personagens encontram amigos que os apoiam em tudo, que se importam quando eles agem de forma estranha, que os procuram quando desaparecem. Quem, no mundo real, tem amigos dispostos a largar tudo o que estão fazendo para ajudar em algum objetivo realmente demorado? Todos têm empregos, famílias, estudos e, cada vez mais, estamos distantes de nossos conhecidos, com menos tempo disponível. Se eu parasse de frequentar os lugares que costumo ir e deixasse de postar nas redes sociais, não creio que alguém viria pessoalmente verificar o que está acontecendo. Talvez eu mesmo não notasse o súbito desaparecimento de alguém, a menos que isso virasse notícia ou fosse marcado algum compromisso específico. Vivemos a época mais individualista da história da humanidade, com cada vez menos grupos se reunindo offline e menos lazer coletivo. Fora isso, quem hoje poderia largar tudo e sair com os amigos em uma longa viagem de autodescoberta? Apenas sair e melhorar como pessoa, sem se preocupar com o retorno financeiro dessa experiência? Não falo de uma semana ou quinze dias, mas de uma jornada de meses ou até anos. Precisamos de dinheiro.
Por último, mas não menos importante, os animes retratam um amor diferente do amor midiático e do "comum" da sociedade. É um amor puro, inocente, geralmente com vergonha de ser demonstrado, com receio de se concretizar. No mundo das relações líquidas, acompanhar um personagem que guarda um amor inabalável por outro durante anos, sem nada mudar, é algo belo. Nos animes, amam-se as pessoas pelo que elas são, por seu coração, sua essência. Na sociedade atual, os relacionamentos tornaram-se descartáveis e muitas vezes desempenham apenas um papel no padrão de vida que queremos para o futuro.
Embora existam exceções para tudo o que falei, creio que, mesmo parecendo infantil por ser um desenho, os animes dialogam profundamente com a humanidade que deseja ser protagonista, que quer se superar, se provar, ter bons amigos, ser amado, alcançar sucesso e reconhecimento, sempre mantendo a virtude em sua busca. E quem não quer isso?