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Expressão Plural

Descanso (III): slow-burn

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Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo Pessoal

Estará o caro/leitor familiarizado com o termo “slow-burn”? “Queima lenta”, como em geral é usado em português? Bem, eu prefiro traduzir como “fogo baixo”: trata-se de um gênero cinematográfico (e literário também) em que a narrativa se desenvolve de modo... lento, às vezes lentíssimo, até chegar em um final explosivo (ainda que não necessariamente), e/ou surpreendente, inesperado.

            O conceito não é novo: “2001, uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick (1968), é apontado como “slow-burn”. “Veludo azul”, de David Lynch (1986), também. E, mais recentemente, filmes como “Interestelar” (Christopher Nolan, 2014). Não basta, para ser “slow-burn”, que o desenvolvimento da história seja “demorado”, ou “muito parado”, como se usa dizer quando o filme não tem o mesmo “ritmo” de um “Velozes e furiosos”. É preciso que o “queimar lentamente” tenha um propósito, leve a um determinado resultado desejado – como em certos casos na culinária.

            Apesar de não ser um conceito propriamente novo, portanto, há uma abordagem, hoje, para o conceito, que certamente é nova. A ideia é a de que o cinema tenha tempo de ser cinema: filmes slow-burn podem ter longas cenas, longos planos-sequência, diálogos super econômicos – quer dizer, as imagens contam a história; A edição de imagens (o “específico cinematográfico”) conta a história. A ideia é, também, a de que o espectador/a tenha tempo para que sua experiência se misture com a dos personagens, que sua subjetividade se “assente” na narrativa, que ele/a passe a fazer parte da história narrada. O cinema japonês, mas não só, tem levado esse conceito à enésima potência, em filmes em que “não acontece nada” – exatamente como na vida, não é mesmo?

            Filmes como (o incrível) “Drive my car” (Ryusuke Hamagushi, 2022), “O mal não existe” (do mesmo Ryusuke Hamagushi, 2023) e “Dias perfeitos” (Wim Wenders, 2023), entre muitos outros, são filmes-meditação: exigem do expectador/a que ele faça cessar o corre físico, mental e emocional do dia. Que encontre repouso em sua melhor posição de poltrona ou de sofá. Que chegue ao ritmo mais natural de sua respiração – e o mantenha – ainda antes dos vinte primeiros minutos de projeção. E que se deixe levar pela história, como um barquinho de papel na correnteza do fio da calçada num dia de chuva. Que ponha em suspensão não só sua descrença (“suspension of disbelief”, essencial para se ver cinema), como ponha em suspensão o que sabe, o que não sabe e o que acredita saber sobre cinema, e ainda suas verdades estabelecidas e preconceitos cascudos. E que, depois, “não entre numas” de super intelectualizar a experiência. Deixe que seus significados também se assentem devagar – e isso pode levar dias – em sua cabeça.

            É o cinema como descanso, caro leitor/a. Como exercício de leveza, nem que seja aquela, insustentável, do ser. Às vezes, como em “Dias perfeitos”, o próprio filme é sobre isso – o que torna a experiência de vê-lo um caso de meta-cinema. O protagonista, um cultivador sofisticado da literatura, da música e da fotografia, é um zelador dos banheiros públicos de Tóquio que estrutura sua rotina de vida de modo absolutamente regrado. Não sabemos se ele é prisioneiro de sua própria rotina – e a própria obsessão da rotina um sintoma -, ou se ele é um Buda contemporâneo, um homem livre, “awake” (desperto, acordado) em sua condução leve de seus dias e de sua vida. Não sabemos, mas temos, ao longo da narrativa, razões para crer nessa segunda condição.

            Em 1979, em sua célebre canção “My my, hey hey (out of the blue)”, Neil Young escreveu: “It’s better to burt out/ Than to fade away”: É melhor incendiar-se, consumir-se em um fogo intenso e rápido, que definhar – ir desaparecendo, sumindo devagar. “Será?”, perguntaria Hirayama, o zelador-leitor, antes de se concentrar na limpeza meticulosa do próximo vaso sanitário de banheiro público. Tão meticulosa que reavaliamos “sem querer querendo” a insustentabilidade do peso de nossos próprios dias imperfeitos.

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