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Expressão Plural

Alfabetização midiática

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Por JF Martignoni
Foto Arquivo pessoal

Uma curiosidade que sempre me instigou foi a reação e interpretação diferente de um mesmo filme por dois ou mais indivíduos. Inclusive por vezes a maioria contrariando a mensagem dos seus criadores. Aí entra a alfabetização midiática, ou seja, a compreensão fundamentada e crítica da natureza dos meios de comunicação, as técnicas que utilizam e os efeitos que essas técnicas produzem.

Temos como exemplo nacional o longa Tropa de Elite (2007), nas palavras de seu roteirista e diretor José Padilha: “o filme foi feito para discutir a relação entre o Estado e a violência, e como a polícia contribui para a conversão da miséria em violência.” Entretanto o que o público majoritário tirou do filme, foi um desprezo aos direitos humanos como “defesa de bandido”, extremismo militar numa visão do cidadão de bem contra o criminoso vagabundo. Voltou uma procura abundante por armamentos. O que inclusive pode ou não estar ligado com a ascensão meteórica da direita no país, pois ela leva esse “bandido bom é bandido morto” no discurso eleitoral. O “nós contra eles”. Tudo veio mastigado do filme pra vida real. 

Este também não é o único filme que causou o efeito contrário. Temos o Coringa (2019), que vem com a tentativa do diretor Todd Phillips em transformar o vilão em um homem quebrado e miserável, diferente do Coringa badass do falecido Heath Ledger, na Trilogia O Cavaleiro das Trevas, que encantou um público bem problemático de jovens com dificuldades em socializar. Todd tentou mostrar a estes jovens que esta não é a maneira de ser aceito, principalmente graças ao histórico de atentados com armas de fogo nos Estados Unidos. Todavia piorou a situação, pois o sonho do jovem ridicularizado em promover uma tragédia e ser venerado por isso e encontrar outros como ele, aparece no ápice do filme. O personagem virou oficialmente o exemplo desse público negligenciado pelo mundo e com tendências violentas. O diretor até tentou ser mais claro na mensagem em “Coringa: Delírio a Dois (2024)”, mas só alienou esse grupo que novamente não entendeu.   

Temos também o exemplo do filme “Crash – No Limite (2004)” em que os diretores procuravam mostrar um arco contra o racismo, mas o que negros viram foi um policial branco racista acabando abraçado pela mulher negra que ele abusou sexualmente na frente do marido qual não reagiu. O que pareceu mais inferiorizar a população afrodescendente, e reforçar o complexo de salvador branco imposto infinitas vezes no cinema que qualquer outra coisa. A maioria dos que sofrem racismo não só não viram a mensagem antirracista, como ficaram indignados pelo retrato, e com razão.

Então nossa mensagem nem sempre será interpretada da maneira que a enxergamos por pessoas com vivências e bagagens culturais diferentes da nossa e podemos causar muito mal tentando fazer o bem. Precisamos mais e mais treinar nossa alfabetização midiática, não só para entendermos o que recebemos, mas também ter ciência dos possíveis efeitos do que propagamos naqueles que são diferentes de nós.

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