“Eu não estou aqui” é o epitáfio que Mario Quintana escolheu para que estivesse em seu túmulo. Só isso já é uma crônica inteira e eu poderia parar por aqui, mas não tenho juízo e terei de escrever mais, está bem?
Lembrei de Quintana, das “ruas de Quintana”, dos céus de Porto Alegre, porque me dei conta, dia desses, em plena Feira do Livro de Porto Alegre (uma lembrança torta, em razão do título do filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles Jr.), que em 2024 faz trinta anos que Mario Quintana – o poeta nascido em 1906 – morreu.
Procurei, na Rua dos Andradas, o Café em que Quintana, como conta a lenda (publique-se a lenda!), tomava um cafezinho expresso e comia seis quindins todas as manhãs – mas o Café não existe mais. Eu meio que lembrava de que ele não existia mais, mas quis confirmar, só para me entristecer (pretexto para comprar um livro de poesia). O Café não está ali. Quando voltei para Erechim, procurei meu exemplar do “Caderno H”, o célebre livro em que se compilam seus textos publicados no Correio do Povo - breves reflexões, aforismos, verbetes “de cabeça para baixo”, estilhaços em prosa poético-filosófica. Trago, assim, para a apreciação do caro leitor/a, excertos do Caderno: o poeta está aqui.
“Relógio. O relógio de parede numa velha fotografia – está parado?”
“Coisas do tempo. Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.”
“Cartaz para uma Feira do Livro. Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.”
“Cuidado! A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.”
“A Esfinge. Na volta da esquina encontrei a Esfinge. Petrifiquei-me. Ela me disse então, olhando-me nos olhos: - Devora-me ou decifro-te!”
“Ser e não ser. Para algo existir mesmo – um deus, um bicho, um universo, um anjo... – é preciso que alguém tenha consciência dele. Ou simplesmente que o tenha inventado.”
“Recato. Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.”
“O assunto. E nem me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.”
“A data. Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.”
“A grande surpresa. Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo.”
“Conto de horror. E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos...”
“A coisa. A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa. E, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.”
“Poesia e magia. A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.”
“Intrusão. O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...”
“Notas da cidade. ‘Não gosto da arquitetura nova/ Porque a arquitetura nova não faz casas velhas.’ Não riam, por favor, que o poema é triste.”