Em tempos, ainda, da 70ª Feira do Livro de Porto Alegre, trago hoje para a apreciação do caro leitor/a um poema de Bertolt Brecht de 1935.
Na coluna passada, eu havia escrito que o ano da primeira Feira do Livro de Porto Alegre, 1954, encontrava-se irremediavelmente distante, e que o texto “Carta aos que gostam de ler”, de Sérgio e Olga Farina (intelectuais da velha cepa, deixados para sempre no século XX), tinha sido escrito em um ano 1999, muito menos próximo do que parece – se a gente reparar bem. No entanto, o ano de publicação do poema de Brecth, 1935, em razão da ambiência política que vivemos nos últimos dez, doze anos, apresenta-se como um ano menos distante. A história não é linear.
“Perguntas de um trabalhador que lê
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída
Quem a ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro
Moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros
Na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo.
Quem os levantou? Sobre quem triunfaram os césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios.
Para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida,
Na noite em que o mar a engoliu,
Os que se afogavam gritavam pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os gauleses.
Não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua Armada naufragou.
Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos
Quem venceu, além dele?
Uma vitória em cada página.
Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos.
Quem pagava suas despesas?
Tantos relatos.
Tantas perguntas.”