21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Expressão Plural

Sob as estrelas

teste
Gerson Egas Severo
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Na semana passada, eu havia prometido escrever a respeito de um episódio da minissérie “Tiny BeautifulThings – As Pequenas Coisas Bonitas”, de Liz Tigelaar, 2023 (a qual recomendo com a máxima ênfase), chamado “Sob as estrelas”. Façamos isso?

A série é sobre uma mulher à beira dos cinquenta anos, Clare, que é mãe de uma adolescente e está separada do pai – pai que cria a filha. Ela é uma escritora frustrada sobre quem, na juventude, recaíam grandes expectativas – mas não publicou seu primeiro livro e desistiu da carreira de escritora (a série se passa em dois tempos: na atualidade e na altura de seus dezoito, dezenove anos). Há, em Chicago, um site de um jornal em que uma coluna faz enorme sucesso: “Dear Sugar”, “Querida Doçura”, em que pessoas escrevem para alguém que não se sabe quem é, em busca de conselhos de toda ordem. Clare descobre que um antigo amigo seu é o “Dear Sugar”; ele não está dando conta do trabalho e o oferece a Clare.

Essas “cartas” e as respostas de Clare são o elemento que junta os dois tempos da narrativa, passado e presente – e isso é feito de uma forma genial. Clare enfrenta os problemas do presente e elabora seu passado doloroso fazendo esses trabalhos: escolhendo, de forma em parte inconsciente, as cartas que têm a ver consigo e com sua vida, e escrevendo em reposta. Sua escrita trabalha o passado e o presente, criando sentido e coesão biográfica. Criada com seu irmão mais novo pela mãe – as relações com o pai são péssimas -, esta morre de câncer com quarenta e cinco anos de idade, e isso devasta o pequeno núcleo familiar e marca profundamente sua vida.

No presente, ela recebe uma mensagem de uma mulher que assina como “Assustada”. É assim (mudei um pouquinho a tradução que aparece nas legendas): “DearSugar: Escrevo de minha pequena cama na UTI pediátrica. Meu marido e eu descobrimos que nossa filha tem um tumor no cérebro. Ela terá de passar por uma cirurgia amanhã. As pessoas têm rezado por nós, agora. Quero acreditar que as orações fazem sentido e estão adiantando, mas não sei. Nunca fui uma pessoa super religiosa, e agora estou duvidando ainda mais de Deus. Estou com tanto medo de perder minha filha... Se Deus existe, por que ele faria isso conosco?”

Enquanto isso, no jogo de tempos, estamos descobrindo, no passado, que a mãe de Clare foi diagnosticada com um câncer em fase terminal. Mais tarde, ela responde à Assustada. “Cara Assustada: Não sei o quanto sinto pelo que você e sua família estão passando. Quando descobri que minha mãe ia morrer de câncer, ela tinha só quarenta e cinco anos. Eu também fiquei assustada. E fiquei, também, com raiva. Se Deus não ia salvar minha mãe, eu pensei que Deus era cruel, ou então que nem existisse. Mas, se ele existe, sei que não é apenas um ser espiritual que pode ou não escutar nossas orações, e aparecer para nos salvar quando as coisas ficam difíceis. E se imaginássemos um Deus diferente? E se percebêssemos que Deus não está na resposta a nossos apelos, mas, sim, nas pessoas que rezam por nós? E se, juntas, essas pessoas formam uma espécie de bote salva-vidas? Um que aguentará o nosso peso e nos manterá na superfície pelo amor que as pessoas nos deram quando mais precisamos? Se eu acreditasse em Deus, eu enxergaria a prova da existência dele nisso. Então, Assustada... E se você não se preocupasse com o Deus dos outros? E se permitisse que seu Deus exista nas palavras simples de compaixão sincera que os outros oferecem? E se fé for o que você sente quando segura o corpo sagrado de sua filha sob o mesmo céu em que sua mãe te segurou? E se nos seus piores momentos, em meio aos seus maiores medos e suas perdas mais profundas, você visse o milagre que existe ali, e só ali?”

Clare, numa situação em que nem há bem o que se possa dizer, foi criativa e sensível: procedeu a um deslocamento teológico – Deus está nos outros, em nossa rede de apoio – e a um deslocamento do sagrado, jogando-o para a ancestralidade de Assustada, em um outro nexo de passado e futuro, semelhante ao que ela mesma está vivendo. Não fez pouco, caro leitor/a. E o episódio é muito, muito mais que isso.

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas

;