Diariamente, deparo-me com um grafite que comunica: “O agro é fogo”, gravado em um dos muros da Avenida 7 de Setembro, ao lado do Master, bem em frente à parada de ônibus onde aguardo o transporte para o trabalho. Essa inscrição ali se encontra desde que a fumaça das queimadas que assolaram o Brasil, em setembro, alcançou Erechim. E desde então a interação que tal comunicação visual estabeleceu comigo me faz refletir, com mais frequência, sobre a importância perene do grafite como arte urbana e como ferramenta de reflexão social.
Muros, comumente delimitadores físicos e sociais, transformam-se, através do grafite, em canais de críticas sociais que desafiam silêncios — no caso, o silêncio sobre as fumaças na cidade. Estranhamente, mesmo após dias com a respiração dificultada, os olhos ardendo e a boca seca após falar, foram poucos os diálogos espontâneos que tive com pessoas sobre o evento que nos oprimia. Penso que interagi mais com o autor ou autora do muro do que com qualquer outro habitante da cidade sobre o assunto. Poeticamente, foi um muro que travou um diálogo político comigo.
Após dias esperando o ônibus e encarando a mensagem, lembrei-me de um dos livros mais importantes e fascinantes de Antropologia que estudei durante o mestrado: "A Queda do Céu", de Davi Kopenawa e Bruce Albert. De maneira resumida, o livro é um relato de vida e um manifesto cosmopolítico de Davi Kopenawa, xamã e porta-voz do povo indígena Yanomami, que denuncia a relação doentia que estabelecemos com a natureza. Para além das tragédias que o homem branco causou a seu povo (algumas envolvendo o ato de respirar — como doenças respiratórias), Kopenawa alerta no livro que, metaforicamente, o céu acabaria por cair em nossas cabeças devido ao nosso afã predatório. Naquele momento, nos dias mais desbotados de fumaça, nada parecia mais profético do que a mensagem do xamã, já que era o céu que apresentava, de modo mais imediato, sinais de colapso.
Penso que aquele grafite me fez companhia em um momento de crise e silenciamento coletivos. Até hoje, após a sobreposição de acontecimentos nacionais e locais que tornaram as queimadas algo anacrônico, ele continua ali para nos lembrar que a imprudência ligada à nossa racionalidade imediatista e instrumental pode fazer com que nosso céu desmorone. A arte urbana possui uma potencialidade subestimada; é ingênuo pensar que são apenas palavras jogadas no concreto. Na verdade, muitas palavras são apelos à convivência e à conexão, como o grafite da Avenida 7 de Setembro que nos convida a nos condenarmos, a nos vermos como predadores de nós mesmos — já que somos responsáveis pelo céu que nos dá o que respirar. Fica o convite.