21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Publicidade

Expressão Plural

As pequenas coisas bonitas

teste
Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

Não é comum que nos sejam recomendados episódios, ou arcos de episódios, de séries de televisão, não é mesmo? Normalmente, o que ocorre é que recomendamos, ou que nos sejam recomendadas, as próprias séries – a série inteira. “Bah, tu já viu tal série? Tem que ver!” É como fazíamos/fazemos com filmes ou com livros. E, como é muito mais difícil assistir a uma série inteira, com sei lá quantas temporadas e episódios, acaba-se “deixando para depois” e perdendo-se a experiência.

Se alguém diz: te recomendo o episódio nove da temporada seis de tal série, a gente faz isto, não faz? Deixa para quando houver tempo para assistir tudo – desconhecendo que, mesmo que um determinado episódio de série, ou um arco de três, quatro episódios, seja um elo em uma corrente maior, constitui uma unidade com sentido, com início, meio e fim – mesmo que haja um antes e um depois – que pode ser apreciada perfeitamente bem. Filmes “fechados”, afinal, também têm um antes e um depois presumível, só que os ignoramos.

Nossa experiência, portanto, com as narrativas cinematográficas e televisivas (teoricamente, tudo é “cinema”), pode ser enriquecida se estivermos advertidos disso, para isso. O momento histórico e cultural que vivemos é um momento de avanço das séries de televisão sobre o filme, inclusive em termos de relevância como narrativa: uma coisa é eu desenvolver um/a personagem e sua cosmo-percepção em duas horas, e outra bem diferente é eu fazer isso em sete temporadas com dez episódios cada uma. Não que o filme não possa fazê-lo bem – sempre fez, faz e continuará fazendo. Mas essa realidade do avanço da narrativa longa é uma realidade inegável – e que, historicamente, tem raízes no folhetim do jornal do século XIX e nas telenovelas.

Mais: isso guarda uma relação tanto com as séries extensas de livros, as trilogias, quadrilogias e assim por diante, como com os podcasts de três, quatro, cinco horas de duração. Tem um fenômeno relativa novo aí, não tem? Tem. E se trata de um fenômeno que contrasta brutalmente com outro (ou será que é a mesma coisa?): o dos vídeos de quinze, vinte segundos, de plataformas como o TikTok, ou o dos “shorts” nas demais redes sociais. A gente abre a boca e se pergunta: espera aí, mas vivendo a época do alargamento até o infinito de todas as narrativas, ou a época do encurtamento? Eu não sei se ainda se pode dizer, como afirmava Marshall McLuhan ainda nos anos 1960, que “o meio é a mensagem”. Ele estava pensando mais em termos da televisão convencional do passado. Pensemos, porém, no TikTok: o meio é a mensagem, a forma é o conteúdo. Dá o que pensar, ainda. E também não sei bem se ainda se pode considerar, como os primeiros pensadores do fenômeno “pós-moderno” (passe o termo), como Jean-François Lyotard, no fim dos anos 1970, que o nosso tempo não é mais o do “isso, ou isto, ou aquilo”, mas o do “isso, e isto, e aquilo”. Trocou-se o “ou” pelo “e”. Tudo ao mesmo tempo agora, num embaralhamento de tempos, para mal e para bem. Vá-se saber...

Agora: todo esse papo-cabeça, tudo isso, para dizer que estamos um tanto perdidos/as na duração das nossas narrativas, na percepção da angulação e dos recortes de unidades de sentido dessas narrativas– e que isso pode ser um fenômeno social, sociológico, mais amplo -. e para recomendar com a máxima ênfase um episódio de uma série excelente: “Sob as estrelas”, o quarto episódio de uma minissérie chamada “Tiny Beautiful Things”, “As Pequenas Coisas Bonitas”, de Liz Tigelaar (2023).

Mas o espaço acabou e eu terei de falar sobre ele no próximo sábado, está bem? Me encontre lá (aqui).

Publicidade

Publicidade

Blog dos Colunistas

;