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Expressão Plural

Equinócio de primavera

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Gerson Egas Severo.jpeg
Por Gerson Egas Severo
Foto Arquivo pessoal

No mundo desencantado em que vivemos, em que tudo o que é sólido se desmancha no ar e tudo o que não é sólido também, as estações e a mudança das estações são meramente teóricas, não são? É que o mundo não está apenas desencantado, está também acelerado. Dá para comparar nossa vida e experiência no mundo, hoje (mas já há um tempão), a uma viagem de trem-bala: a paisagem à janela só é percebida como um borrão. A gente até se espanta quando fica sabendo que a estação mudou – e, como observou Renato Russo em outra clave, “mudaram as estações... nada mudou.”

Um jeito de perceber a mudança é trocar o modo trem-bala pelo modo bicicleta, e passar o ver “as coisas que você só vê quando desacelera”: aquela ruazinha, aquele muro, aquela árvore, aquele bicho, aquela mata em chamas, aquele céu em queda livre.

Um outro jeito é recuperar do fundo dos baús em que estão guardadas e esquecidas as coisas que não devíamos ter guardado e esquecido, os modos como filosofias e sistemas de crença de outros tempos e lugares entendiam as estações e suas mudanças.

Deng Ming-Dao, na tradição taoísta, vê a primavera como uma afinação de um instrumento musical: “O Sol, em sua travessia, conduz a uma nova estação; o alento primaveril afina as folhas.” Afinarmo-nos com oTao (o Cosmos e seu “flow”, diríamos) é a tarefa básica. O Tao está aqui. Nós é que não estamos em harmonia com ele; nós é que não estamos prontos para acompanhá-lo; nós é que nos envolvemos em distrações; nós é que pensamos compulsivamente. Uma vez afinados, nos tornamos abertos. Quando o Sol começa seu novo padrão, segue-se a primavera. O ar aquece e o mundo se rejubila. Um novo alento sobrevém a todas as coisas, e mesmo as folhas trêmulas afinam-se ao ritmo primaveril. Volte seu rosto para o Sol, como as flores sabem fazer.”

Alison Davies, desde uma perspectiva da Grã-Bretanha agrária e ancestral, antes do cristianismo, salienta que, na passagem do inverno para a primavera, “dentro da barriga da terra uma coisa empolgante começa a nascer”, e que a primavera é uma estação associada desde tempos muito remotos às ideias de germinação, florescimento, renovação e esperança – numa espécie de fio, de continuum, entre o que acontece na terra (na Terra?) e o que acontece conosco. Assim, observar as sementes crescerem (Kyle Gray) - ou, como no conto da tradição Zen, escutar a grama crescer - significaria, simbólica e internamente, abrirmo-nos à criatividade: ideias, inspirações, projetos. Um trabalho de afinação de nosso violino interior, para dizer com Deng Ming-Dao – uma afinação que, em sentido existencial (Davis), diria respeito a um tempo de cultivo de confiança em quem se é e no que se quer. Em “Harry Potter”, a professora Sprout ensinava o feitiço “Herbivucus!” – e o nome do mundo passava a ser “floresta”, de novo.

Alison Davis observa ainda que os povos antigos já possuíam a consciência astrológica, astronômica, de que os dois equinócios – o da primavera e o do outono – são os únicos dois dias do ano em que o dia e à noite, a luz e a escuridão, têm a mesma duração: uma medida de equilíbrio. E que desde criança, em todos os equinócios, repete um mantra pessoal: “Que neste dia de equilíbrio perfeito/ Eu fique equilibrada do meu jeito.”

Terá o caro leitor/a percebido a sutileza? Não existe um jeito só de se estar em equilíbrio. Nem de se observar a trajetória aparente do Sol no céu. Nem de desacelerar e (re)inventar projetos. E nem de reencantar o mundo.

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