O Coldplay, com colaborações de Burna Boy, Elyanne, Little Simz e TINI, lançou há cerca de dez dias uma música chamada “We pray”: “Nós rezamos”, nós estamos em oração. Trata-se de uma daquelas canções que aparecem de tempos em tempos, com um jeitão de hino – como “We are the world”, por exemplo – que chama a atenção para as necessidades do mundo, os descaminhos do mundo, o desamparo do mundo. Que são mais, portanto, que apenas mais uma canção.
A melodia, a batida e a letra compõem, elas próprias, um “rezo”: “And so we pray”, e então nós oramos, é a frase que atravessa toda a estrutura da música, marcando cada verso. E o tema traz a oração como um instrumento de resiliência e de resistência dos povos, em última instância, ainda que se inicie tendo como objeto o próprio rezador/a seus companheiros/as. “Eu rezo para que eu não desista”; “rezo para que meus irmãos/irmãs sejam abençoados”; “Rezo para [que tenhamos] o suficiente”; “rezo para que Virgílio vença.” Que verso inesperado, no universo da música pop! Em “A Divina Comédia”, Virgílio conduz o próprio Dante (conduz a nós todos/as?) pelo Purgatório e pelo Inferno. É bom que ele tenha êxito, não é? “Rezo, embora eu mesmo esteja no vale das sombras da morte” – uma referência ao célebre salmo bíblico.
“E então nós oramos/ Por alguém que venha e me mostre o caminho.” A canção lembra-nos de que não há nada de errado em alguém nos mostrar o caminho – sem que isso exclua a nossa própria autonomia em encontrar por conta próprio esse caminho. Pense bem: legal, hein? “Por refúgio e por alguns discos para tocar”: não há nada errado, também, em tu buscares abrigo no teu cafofo e ter uns duzentos álbuns para ouvir, não é mesmo? Um chá? Uma vela? E, de súbito, a letra nos transporta para o Oriente Médio: “Estaremos cantando ‘Baraye’”, numa outra referência genial. Trata-se da canção de protesto composta em 2022 pelo iraniano Shervin Hajipour (baraye significa “por...”, ou “por causa de...”), que tematiza a prisão de Mahsa Amini pela República Islâmica do Irã – ela própria uma outra oração. “Eu rezo para que eu possa dizer a minha verdade e para que minhas irmãs permaneçam vivas.” E “para que quando elas se olharem no espelho, enxerguem a si mesmas como rainhas, como deusas.”
No último verso, antes de o refrão ser retomado e a canção terminar, o “tom” dá uma descida, ecoando o “vale das sombras da morte”: “Apoiando-me nos joelhos, eu rezo, enquanto durmo e acordo/ Porque em minha mente há um lugar assustador.” Essa parte, desenvolvida como um rap, escapa à vibração otimista da música e reconhece o pântano basal de medo que se encontra nas raízes de nossa experiência na vida e no mundo. Esse medo por ser específico, “situacional”, ligado a uma ameaça evidente, ou pode ser algo mais antigo, mais inconsciente, mais guardado naquele “lugar assombrado” a que se refere a letra da canção. Ou pode ser que o primeiro, não menos real ou relevante, ative esse último e alimente-o, nutrindo-se.
O refrão – “And so we pray” – retorna, no entanto, e a voz límpida de Chris Martin nos faz respirar de novo, trazendo como conclusão um verso que não havia aparecido ainda: “E nos rezaremos até que ninguém esteja em necessidade, e até que todos possam cantar”, até que todos possam unir-se a esse refrão.
As ideias de solidariedade, comunidade e ajuda mútua nem sempre estão presentes no gênero, por assim dizer, oração. Mas o gênero é vivo – e quem disse que novos rezos não podem ser adicionados ao acervo humano de busca por auxílio e sentido? Contextualizada junto a lutas míticas, políticas e sociais, a canção ainda afirma que a oração não precisa ser algo passivo, dissociado de outras ações. “E então eu rezo/ Até que nós façamos o que é preciso fazer antes do fim do dia.”