Num dia desses, mexendo distraído no celular, me deparei com uma publicação em um perfil especializado em música – cujo nome, infelizmente, eu não retive – que ranqueava as dez canções de Raul Seixas mais reproduzidas nos serviços de streaming. Fiquei um tanto surpreso com a música – tu também, caro leitor/a? - que estava no topo da lista, em primeiríssimo lugar: “Tente outra vez”.
Pensei: ué, mas e “Gita”, “Metamorfose Ambulante”, “Medo da Chuva”, “Maluco Beleza”, “Cowboy Fora-da-Lei”? Ainda que seja uma composição muito apreciada em meio uma obra que já há tempos conhece um lugar bem estabelecido, de clássico, no cancioneiro brasileiro, e que representa uma unanimidade sobretudo entre pessoas da geração “X” – nascidos entre 1964 e 1983 -, mas não só, “Tente outra vez” não seria exatamente, para mim, pensando assim de bate-pronto, a canção de Raul Seixas que todo mundo tem na ponta da língua. Ledo engano.
“Tente outra vez” é a música que abre o álbum de 1975 de Raul, intitulado “Novo Aeon”, o qual faz uma trilogia com “Gita”, de 1975 (o trabalho que projetou o músico), e com “Há Dez Mil Anos Atrás”, de 1976. Ela é creditada, também, a Paulo Coelho e Marcelo Mattos, amigos (naquele momento) e parceiros musicais que formavam o entorno cultural mais próximo de Raul, ligado à contracultura e à cosmovisão hippie, num caldeirão alimentado pelas chamas do exoterismo e do ocultismo: a “Sociedade Alternativa”. Deixemos de lado, porém, o contexto da canção; afinal, sua posição nos serviços de streaming pouco ou nada terá a ver com tais elementos (será?). Fiquemos com a canção em si mesma.
Eu me botei a escutá-la repetidamente, com a intenção de oferecer alguma explicação para o fato – uma espécie de “sociologia” de “Tente outra vez”. Trata-se de uma balada-rock com aspectos folk e vocais de apoio femininos que lhe dão toque gospel. É um arranjo “emocionante”, com bateria e violões destacados, em que a voz e o discurso de Raul, como os de um guru contracultural em um sermão da montanha woodstockiana, instiga um interlocutor/a ideal a seguir em frente – a não desistir. Será isso - esse “não desistir” – o elemento que “pega” o brasileiro/a? Sei lá, pode ser. Alguém diria que é uma explicação fácil demais, ufanista demais, ligada a uma leitura edulcorada de o que sejam o Brasil e os brasileiros/as. Tudo bem. Mas não é por isso que não haveria aspectos de verdade nessa explicação. Vejamos.
A letra é estruturada sobre quatro verbos imperativos, três abrindo cada um dos versos, e um no título e no refrão: “Veja - não diga que a canção está perdida; beba - pois a água viva ainda está na fonte; queira - basta ser sincero e desejar profundo. Tente outra vez." A melodia veio à mente de todo/as, não veio? Pois é.
Na segunda parte deste texto, irei oferecer uma interpretação da canção, está bem?