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Expressão Plural

O patrimônio histórico e a negociação da memória

Doutora em Antropologia e Professora da UFFS Campus Erechim

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Por Andressa Soilo
Foto Arquivo pessoal

O Dia Nacional do Patrimônio Histórico no Brasil, celebrado em 17 de agosto, tem como uma de suas funções a valorização da cultura. É um dia dedicado ao resgate da memória coletiva, ao fortalecimento do senso de pertencimento da comunidade e ao compartilhamento de identidades. De modo geral, a data mobiliza iniciativas que nos incentivam a refletir sobre as riquezas simbólicas produzidas por diferentes grupos sociais, seja por meio de matérias jornalísticas, manifestações políticas, exposições, palestras ou eventos culturais. Mas além disso, é um momento para refletir sobre a representatividade do patrimônio em relação à sua população.

Em termos de representatividade do patrimônio regional, podemos levantar algumas questões: Quais conjuntos de memórias são selecionadas para recordar Erechim? Quais elementos simbólicos são mobilizados quando pensamos na cidade? Quais tradições, objetos e histórias são destacados para definirmos a importância da comunidade?

Essas perguntas são interessantes porque definem os critérios pelos quais práticas e bens culturais são reconhecidos como relevantes e representativos, em contraste com outros. Elas orientam o imaginário social para a manutenção da construção de uma narrativa coletiva. O patrimônio é uma decisão sobre o que deve ser lembrado, protegido e valorizado. Também é um reforço sobre o que deve ser esquecido, negligenciado e desconsiderado.

Uma das edificações que mais simboliza o patrimônio histórico e cultural em Erechim é o Castelinho, que foi a antiga sede da Comissão de Terras e Colonização. Esse órgão, criado no Brasil no final do século XIX, tinha o objetivo de administrar a distribuição de terras e promover a colonização. O Castelinho foi tombado na década de 1980 por ser representativo da política imigratória no Rio Grande do Sul, que resultou na ocupação da região por imigrantes europeus e seus descendentes. Apesar das controvérsias sobre os critérios de distribuição de lotes e terrenos que fez parte.

As controvérsias na distribuição de terras ocorreram porque, quando os imigrantes europeus foram introduzidos nas colônias, o território já era habitado pelos indígenas caingangues. Na época, esse grupo era considerado "não civilizado", em contraste com os ideais de ordem e progresso promovidos pelo positivismo. Devido à falta de interesse ou competência dos governos, não foram elaboradas políticas de compartilhamento de terras que incluíssem todos os grupos envolvidos. Isso resultou em desintegração e marginalização social dos indígenas.

Apesar, e sobretudo por causa, do escasso material científico produzido e valorizado sobre essa parte da história, importa refletirmos e relativizarmos qual o papel do patrimônio histórico e cultural oficial ou oficioso da cidade. Assim como pensarmos quais seleções de memória o povo erechinense preserva, e quais se escusa. Importa pensarmos quais memórias e histórias preserva e quais são deixadas de lado.

O patrimônio histórico e cultural produz e reproduz relações entre o indivíduo e o mundo, define identidades e mobiliza noções modernas de herança cultural dentro de um sistema que busca se tornar homogêneo simbolicamente. Homogeneidade que devemos relativizar para democratizar histórias e visibilizar relações que construíram Erechim.

 Não há mais tempo nem espaço para incorporarmos incessantemente a narrativa do europeu de práticas adâmicas, que dá origem a todos os territórios. Já havia uma história aqui. Uma história pouco lembrada e que deve ser negociada e incluída no campo patrimonial.

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