Livros sobre livros são, já há tempos, o meu gênero preferido de livros. O mais recente que li foi uma super experiência de leitura – e eu o recomendo para todo mundo: “O Clube do Livro do do Fim da Vida” (2013), do escritor e editor Will Schwalbe.
Não se trata de um livro de ficção, como o título pode sugerir. Trata-se de um relato profundamente sensível e erudito, em primeira pessoa, da relação que Will estabelece com sua mãe, Mary Anne, após o diagnóstico de câncer de pâncreas dela, em 2007. Essa relação ocorre em meio a leituras, releituras e diálogos dos/sobre os livros que amam, que amaram e que continuam a descobrir. Um “clube do livro” de duas pessoas. A narrativa e os capítulos que compõem a obra são estruturados em temas que de um lado se referem aos livros que leem ou de que se lembram, e de outro dizem respeito aos estágios da doença e à proximidade da morte.
Num desses capítulos, chamado “O véu pintado”, numa menção direta ao romance de W. Somerseth Maugham de 1925 (“a história de um médico e sua mulher infiel, Kitty, que viajam, por motivos diferentes, à China rural para combater uma epidemia de cólera), mãe e filho interpretam a obra como um tratado sobre infidelidade, perdão e bondade, mas também sobre coragem. Numa sessão de quimioterapia Mary Anne diz para o filho que quer lhe mostrar seu trecho favorito. “Estava com o dedo na parte em que Kitty descreve as freiras para quem está trabalhando num orfanato chinês.” O trecho:
“Não sei como lhe dizer o quão profundamente me emocionei com tudo o que vi no convento. Elas são maravilhosas, as freiras, e me fazem sentir que não valho absolutamente nada. Abrem mão de tudo, seu lar, seu país, amor, ter filhos, liberdade; e todas as pequenas coisas que às vezes acho que devem ser ainda mais difíceis de abrir mão, flores e campos verdes, sair para passear num dia de outono, livros e música, conforto, de tudo elas abrem mão, de tudo. E fazem isso para poder se dedicar a uma vida de sacrifícios e pobreza, obediência, trabalho penoso e oração.”
Sendo uma pessoa cética e certamente não religiosa, Will pergunta à mãe: “Mas a Kitty também se pergunta se talvez as freiras tivessem sido enganadas. E se não houver vida eterna? Então qual foi o sentido de todo o sacrifício delas?” Mary Anne lembra que um personagem diz a Kitty que ela procure “considerar a beleza da vida das freiras como perfeitas obras de arte, a despeito do que vier depois.” Passando-se a história na China, esse interlocutor pede a Kitty que ela “contemple o Tao”: poderoso é aquele que conquista a si mesmo.
Mas a mãe tem também a sua própria leitura: “Kitty admira a coragem das freiras – mas é tão corajosa quanto elas, ou ainda mais. As freiras fazem o que fazem sem medo; ela faz o que faz apesar do medo. Acho que é isso que o amigo dela quer dizer quando cita o Tao. E, além disso, a recompensa das freiras está nesta vida e na vida depois desta. Elas não foram enganadas de modo nenhum.” O tema é mais longamente desenvolvido, desde experiências das vidas dos dois, mas Mary Anne, em sua leitura de Maugham, parece ter apanhado o essencial da questão: a relação entre medo e coragem – e isso em meio a um processo de tratamento de uma doença extremamente grave.
Aristóteles salientou que a coragem é a principal virtude humana, pois é aquela que se constitui em uma condição mesma para o exercício de todas as demais virtudes. Guimarães Rosa, em outra clave, mas em harmonia com Aristóteles, observou que coragem é tudo o que a vida quer de nós. Sob a luz da experiência de Will e Mary Anne, a coragem de segurarmo-nos as mãos, de ler livros para enriquecer a vida que vivemos, a coragem de desenvolvermos a nossa própria consciência e voz nas interpretações de o que sejam a vida e o mundo, e as coisas do mundo, a coragem de viver, a coragem de morrer.